Por Barroso Guimarães

Em Sergipe, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 6.450 novos casos de câncer por ano no triênio 2023–2025 (exceto pele não melanoma), o que representa mais de 19 mil diagnósticos até 2025. Entre os homens, o câncer de próstata lidera, com cerca de 870 casos anuais; entre as mulheres, o de mama aparece em primeiro lugar, com aproximadamente 570 novos registros por ano.

Nesse cenário, a AAACASE — Associação de Apoio ao Adulto com Câncer do Estado de Sergipe — se consolida como uma rede vital de acolhimento. Há mais de duas décadas, a instituição oferece hospedagem gratuita, quatro refeições diárias, transporte para hospitais e apoio psicossocial a pacientes em tratamento oncológico longe de casa.

Quartos da AAACASE garantem acolhimento e descanso a pacientes e acompanhantes em tratamento

Fundada em 2001 como organização não governamental sem fins lucrativos, a AAACASE distribui cerca de 200 cestas básicas por mês e mantém três unidades de apoio para pessoas que não têm onde permanecer durante sessões de quimioterapia, radioterapia e consultas especializadas.

Origens da Casa de Apoio

A história da AAACASE começa antes mesmo de sua fundação formal, nos anos 1970, quando a oncologia clínica dava os primeiros passos em Sergipe. Formado em Medicina pela Universidade Federal de Sergipe em 1971, com residência no Rio de Janeiro, o médico Geraldo Bezerra retornou ao estado em 1975 para implantar os primeiros ambulatórios oncológicos no prédio do SEMAR (antigo Serviço de Medicina e Assistência Rural), no bairro Baixo Siqueira Campos, em Aracaju.

A ausência de qualquer política de acolhimento para adultos em tratamento oncológico fazia com que muitos pacientes enfrentassem situações extremas de abandono e vulnerabilidade social.

🔊 Ouça: Dr. Geraldo Bezerra relembra a realidade enfrentada por pacientes adultos com câncer antes da criação da AAACASE

Ao longo das décadas, Dr. Geraldo se consolidou como uma das principais referências da oncologia sergipana, acompanhando tanto a evolução dos tratamentos quanto a dura realidade social enfrentada pelos pacientes. A ausência de políticas públicas voltadas ao acolhimento de adultos em tratamento fora de seus municípios de origem evidenciou a necessidade de uma rede de apoio que fosse além do atendimento médico.

“O câncer sempre foi uma doença que expõe desigualdades. Quem tem recursos enfrenta o tratamento de uma forma; quem não tem, sofre dobrado. A AAACASE nasceu para reduzir essa distância”, destaca. Para ele, uma casa de apoio é tão essencial quanto o próprio tratamento. “Não adianta oferecer quimioterapia se a pessoa não tem onde dormir, o que comer ou como voltar ao hospital no dia seguinte.”

Hoje voluntário, Dr. Geraldo resume o papel da instituição: “Aqui não se trata apenas de doença, mas de dignidade. A AAACASE é a prova de que cuidar também é acolher, ouvir e estar presente”.

Dr. Geraldo, pioneiro da oncologia em Sergipe, acompanhou desde o início a AAACASE e, aos 80 anos, atua como voluntário.

Enquanto a Avosos (Associação de Voluntários contra o Câncer Infantil) já cuidava das crianças atendidas no Hospital João Alves Filho, os adultos permaneciam sem suporte social estruturado. Foi nesse contexto que Neide e Cleide, irmãs e funcionárias do Centro de Oncologia, reuniram colegas e fundaram a AAACASE. “Eu vi a casa nascer e não poderia ficar de fora, pela minha consciência humanística”, afirma Dr. Geraldo, hoje voluntário aos 80 anos.

Atualmente, a instituição mantém a sede de hospedagem no bairro Siqueira Campos, um anexo no conjunto Inácio Barbosa — voltado a atividades de reabilitação, como pilates, dança, reiki, além de atendimento psicológico e nutricional — e uma unidade em Lagarto, próxima ao Hospital do Amor.

Profissionais e voluntários na linha de frente

Maria das Dores Santos, 82 anos, é a primeira voluntária da AAACASE. Há 22 anos, ela percorre bairros com os “carnezinhos” — carnês de doações mensais de R$ 10 ou R$ 20 — arrecadando contribuições porta a porta. “O povo me dá, eu boto aqui e trago”, conta. Aposentada, frequenta a casa às segundas, quartas e quintas-feiras, conversando com pacientes. “Adoro ficar aqui, tenho amizade com todo mundo.”

Maria das Dores Santos, 82, primeira voluntária da AAACASE, arrecada doações há mais de 20 anos para a instituição

A assistente social Sheila Miucha, há 15 anos na AAACASE, é a principal porta de entrada dos acolhidos. Ela avalia cada situação a partir do diagnóstico confirmado de câncer em adultos, da condição socioeconômica das famílias e da necessidade de hospedagem ou de visitas domiciliares na Grande Aracaju. O trabalho inclui ainda o empréstimo de camas hospitalares, cadeiras de rodas e a distribuição de cestas de higiene.

“Noventa por cento do nosso trabalho é social”, explica Sheila. Ela lembra de uma paciente que viajou dez horas e permaneceu três meses na casa, deixando emprego e família para realizar o tratamento. “É uma troca de vida. Aprendemos a olhar para frente com amor ao próximo.”

🔊 Sheila Miucha explica o trabalho social da AAACASE

A psicóloga voluntária Patrícia Torres atua na reconstrução emocional dos pacientes. “O paciente é mais do que o tratamento. Trabalhamos o acolhimento para que ele encare os problemas de forma mais leve.” Ex-funcionária da instituição em outra área, ela retornou como voluntária após se formar. “Eles nos ensinam mais do que ajudamos. A resiliência aqui é muito forte.”

O fisioterapeuta Givanildo “Chico” de Jesus iniciou sua trajetória como estagiário e acabou efetivado. Atua principalmente com mulheres submetidas a mastectomias ou cirurgias de mama, realizando drenagem linfática e liberação miofascial. “Não é só físico, mexe diretamente com a autoestima”, explica. Um caso o marcou: uma paciente com dor crônica persistente há dez anos após cirurgia encontrou alívio com sessões individualizadas.

Acolhidos e famílias apoiadas

Wellington Nunes da Silva, 47 anos, morador do povoado Vale dos Potos, em Itapicuru (BA), viaja mensalmente para acompanhar o pai, Joselito Nunes da Silva, de 76 anos, em tratamento de leucemia no HUSE (Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe).

A leucemia representa 48,78% das mortes por neoplasias hematológicas em Sergipe, segundo dados recentes, o que reforça a gravidade da doença e a importância do acesso a tratamento especializado.

Desde o início do tratamento, a família enfrenta longas jornadas entre o interior da Bahia e Aracaju, chegando à capital sergipana após dias exaustivos de atendimento hospitalar. Sem a estrutura oferecida pela AAACASE, o deslocamento diário se tornaria inviável, tanto do ponto de vista físico quanto financeiro.

Segundo ele, o ciclo do tratamento é rigorosamente definido. “Ficamos uma semana completa aqui, com alimentação e transporte para todos os procedimentos. Depois voltamos para casa e, 28 dias depois, retornamos.”

🔊 Ouça Wellington relatar como a AAACASE evitou viagens diárias de 100 km

Ele também destaca a vantagem logística. “Aracaju é mais perto que Salvador. Isso faz toda a diferença para quem vem do interior da Bahia.”

Para a família, a AAACASE funciona como base fixa do tratamento. “Sem a casa, teríamos que viajar todos os dias. É inviável.” A rotina se repete mês a mês: chegada no domingo à noite, tratamento durante a semana e retorno na sexta-feira. “É muito apoio. O HUSE é uma referência total”, conclui.

Liderança e sustentação financeira

Neide Santos (à esquerda) recebe donativos destinados à AAACASE, contribuindo para o apoio a pacientes em tratamento

À frente da AAACASE, a presidente Neide Santos coordena o funcionamento das três unidades da instituição, que têm um custo mensal aproximado de R$ 120 mil. O valor cobre despesas como aluguéis, funcionários, energia elétrica, quatro refeições diárias para pacientes e acompanhantes, fraldas descartáveis, cestas básicas e a realização de exames urgentes quando há demora no atendimento pelo SUS.

🔊 Ouça Neide Santos explicar por que o câncer não pode esperar

Além da estrutura de hospedagem e alimentação, a AAACASE mantém uma política de apoio emergencial, garantindo a realização de exames e procedimentos quando há demora no atendimento pelo sistema público de saúde. Mensalmente, a instituição distribui cerca de 200 cestas básicas, geralmente até o dia 10. Segundo a presidente, as doações costumam cair nos meses de janeiro e fevereiro e aumentam em novembro e dezembro. No período natalino, a casa promove uma confraternização para aproximadamente 60 pessoas, com a entrega de cestinhas natalinas.

Sueli Ouro na AACASE

Sueli Ouro, madrinha da casa, é influenciadora digital com mais de 103 mil seguidores e atua em 27 projetos sociais. Consultora do governo estadual em inclusão social, trabalha também no presídio feminino, criando oportunidades de geração de renda para detentas, além de ter atuado como missionária adventista em missões na África.

“O sentido da minha vida é dar sentido à vida de alguém”, define. Na AAACASE, ela promove o que chama de “conexões positivas e poderosas”, direcionando a disposição solidária de seus seguidores para a instituição. Organiza bazares beneficentes com roupas de sua própria marca, cuja renda é integralmente revertida para a manutenção da casa.

Presente em datas comemorativas, Sueli também realiza palestras com mensagens de fé, motivação, esperança e poesia. Pacientes relatam impactos profundos: “Seu amor me salvou, seu amor me salva todos os dias”.

Essa atuação complementa o trabalho de Silvia Tatiane, responsável pelo setor empresarial da AAACASE. Ela busca empresas e pessoas dispostas a contribuir, destacando a possibilidade de abatimento das doações no Imposto de Renda.

Apesar disso, enfrenta resistência. “Conseguimos mais das pessoas carentes do que das empresas. Muitos empresários acham que só vale ajudar se for com muito”, relata. Silvia desconstrói essa ideia: “R$ 50, R$ 100 ou uma cesta básica já fazem diferença real.”

A captação ocorre, em grande parte, por meio de contatos diretos. A visibilidade da instituição é ampliada pelo Instagram, influenciadores parceiros, TV, rádio e pelos 24 anos de atuação em Aracaju, além da expansão em Lagarto.

Desafios superados e legado

A unidade de Lagarto representou uma virada estratégica. Alugada em 2022, funcionou de forma tímida em 2023, mas ganhou protagonismo em 2025 com a inauguração do Hospital do Amor. “Chegávamos a deixar cinco ou seis pacientes por semana sem vaga”, relata Neide.

Em 28 de novembro de 2025, a AAACASE mudou para um imóvel maior, ampliando de três para nove quartos e zerando as recusas — medida essencial em um estado onde 27% dos diagnósticos oncológicos ultrapassam o prazo da Lei dos 30 Dias do SUS.

No anexo do Inácio Barbosa, mulheres do interior enfrentam viagens de seis a sete horas para fisioterapia, pilates, reiki, dança e musicoterapia. “Chegam doloridas, mas saem aliviadas”, observa Neide. As atividades não curam o câncer, mas devolvem qualidade de vida durante tratamentos agressivos.

A trajetória de Dr. Geraldo Bezerra sintetiza esse legado. Pioneiro da oncologia em Sergipe, ele também enfrentou a doença: superou um câncer de intestino e três episódios de carcinoma urotelial na bexiga.

“Eu sou canceroso e cancerologista”, resume. Aos 80 anos, segue no consultório, ajudando pacientes com sua experiência. Testemunha do nascimento da oncologia sergipana, fundador indireto da AAACASE, paciente vitorioso e voluntário permanente, ele fecha um ciclo que une ciência, solidariedade e humanidade.

Como ajudar a AAACASE

Quem deseja contribuir pode doar via Pix (CNPJ 05.437.350/0001-33), visitar as unidades do Siqueira Campos, Inácio Barbosa ou Lagarto, tornar-se voluntário ou mobilizar empresas para doações com abatimento no Imposto de Renda.

A assistente social Sheila Miucha reforça: “Cada contribuição garante alimentação, acolhimento e dignidade para famílias que enfrentam o câncer longe de casa”.

Em um cenário marcado por rupturas, medo e incertezas, a AAACASE se mantém como ponto de apoio essencial, sustentada pela generosidade de pessoas comuns e pelo trabalho voluntário. “Castelos vazios viram preenchidos de amor”, resume Sueli Ouro — síntese do que a instituição constrói diariamente há mais de duas décadas.

 

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