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O conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, já provocou uma perda de US$ 53 bilhões em valor de mercado das 20 maiores companhias aéreas listadas em bolsa desde o fim de fevereiro, aprofundando assim a maior crise operacional do setor desde a pandemia. O impacto combina aumento abrupto do combustível, restrições de espaço aéreo e redução de capacidade global.
Nesse domingo (22), por exemplo, o setor seguiu operando sob forte impacto. A crise manteve fechados, pelo segundo dia seguido, alguns dos principais aeroportos de conexão do Oriente Médio, entre eles o de Dubai. Aeroportos de Abu Dhabi e Doha também registraram paralisações totais ou severas restrições.
Segundo levantamento citado pelo Financial Times e repercutido pela imprensa internacional, investidores reagiram rapidamente à escalada do conflito, penalizando ações de empresas aéreas diante do aumento de custos e da incerteza sobre a duração da crise.
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O principal fator por trás da turbulência financeira é o querosene de aviação. Desde o início do conflito, o preço do combustível praticamente dobrou, ampliando assim o custo operacional das companhias, item que normalmente representa cerca de um terço das despesas totais do setor.
Executivos de empresas aéreas já sinalizam que reajustes tarifários devem ocorrer globalmente caso a pressão persista. O CEO da easyJet, Kenton Jarvis, por exemplo, afirmou que a alta recente superou até mesmo o impacto observado após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
O CEO da Lufthansa, Carsten Spohr, por sua vez, destacou que o setor opera com margens muito estreitas. Segundo ele, o lucro médio gira em torno de €10 por passageiro, o que impede absorver integralmente o aumento dos custos sem repasse ao consumidor.
No Brasil, a situação não é nada diferente. As companhias aéreas estão pleiteando ao governo federal que as medidas adotadas para reduzir o impacto da alta do diesel também sejam aplicadas ao querosene de aviação (QAV). O pedido surge também após o aumento recente do preço.
Espaço aéreo restrito afeta rotas globais
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O conflito também provocou interrupções importantes no tráfego aéreo do Oriente Médio, especialmente na região do Golfo, onde estão alguns dos principais hubs de conexão intercontinental do mundo.
Diversas companhias suspenderam voos, reduziram frequências ou passaram a adotar rotas alternativas mais longas para evitar áreas de risco, mudanças que impactam principalmente ligações entre Europa, Ásia e África, elevando tempo de voo, consumo de combustível e custos operacionais.
Além disso, empresas como a United Airlines já iniciaram cortes preventivos de capacidade diante da expectativa de combustível caro por período prolongado.
Risco de escassez energética preocupa companhias
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Outro fator crítico é a ameaça de interrupção nas cadeias de fornecimento de petróleo. O quase bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, elevou ainda mais a tensão no setor energético.
O preço do petróleo Brent crude subiu mais de 50% desde o início da crise, enquanto o querosene de aviação chegou a ultrapassar US$ 200 por barril em alguns mercados. Estima-se que até 17 milhões de barris diários tenham sido afetados na região do Golfo Pérsico.
Executivos do grupo Air France-KLM, liderado por Benjamin Smith, por sua vez, já trabalham com cenários de possível escassez de combustível e admitem reduzir voos para determinadas regiões, especialmente na Ásia, caso o quadro se agrave.
Impacto vai além do transporte de passageiros
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No mercado financeiro, companhias aéreas passaram a liderar perdas entre empresas de transporte, com investidores ampliando posições vendidas (short) diante do risco de deterioração dos resultados. Segundo analistas, o movimento reflete receio de combinação prolongada entre combustível caro, redução de demanda e instabilidade geopolítica.
A crise também afeta o transporte de cargas. Com rotas marítimas pressionadas e cadeias logísticas instáveis, parte do frete internacional migrou para o modal aéreo, reduzindo ainda mais a capacidade disponível e elevando custos operacionais.
O diretor-geral da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata), Willie Walsh, classificou o cenário atual como uma “grande crise” para companhias do Oriente Médio, embora ainda inferior ao choque provocado pela pandemia.
Executivos do setor também comparam o momento à retração do tráfego aéreo transatlântico após os ataques de 11 de setembro, quando mudanças abruptas alteraram padrões de demanda internacional.