Em uma noite marcada por avanços estruturais e fortalecimento institucional, a Polícia Militar de Sergipe realizará, nesta terça-feira (31), uma solenidade histórica que reunirá dois marcos importantes para a segurança pública do estado: a inauguração do Centro de Lutas da Corporação e a formatura de 308 novos soldados oriundos do Curso de Formação de Praças (CFP/2025).
O evento acontecerá às 19h, no Centro de Ensino e Instrução (CEI), localizado na Rua Argentina, s/n, Bairro América, em Aracaju, e contará com a presença do governador do Estado, além de autoridades civis e militares.
A inauguração do Centro de Lutas representa um avanço significativo na estrutura de capacitação da PMSE. O espaço foi concebido para potencializar o treinamento técnico dos policiais militares, especialmente nas áreas de defesa pessoal, controle de distúrbios e uso progressivo da força.
A iniciativa reforça o compromisso da corporação com a qualificação contínua do efetivo, proporcionando melhores condições de preparo físico e tático, alinhadas às demandas contemporâneas da atividade policial. O novo equipamento também contribui para a promoção da saúde, disciplina e resiliência dos profissionais de segurança pública.
Projeto social A Escola Vai ao Batalhão de Choque
A ideia de criar um projeto social voltado às artes marciais dentro da Polícia Militar não nasceu de um plano traçado no papel, mas de um encontro inesperado entre vocação e oportunidade. Enquanto ministrava aulas de defesa pessoal no Batalhão de Choque, Élvio passou a perceber olhares curiosos à margem do tatame: eram os filhos dos policiais, atentos e desejosos de também aprender.
No início, os pedidos vieram tímidos, mas insistentes. Por outro lado, Élvio sabia que a defesa pessoal, por norma da Corporação, destinava-se apenas aos integrantes da segurança pública. Foi então que ele encontrou um caminho possível e abriu espaço para o judô, sua luta raiz. As primeiras aulas começaram no dia 12 de agosto de 2011, apenas com dois alunos. Dois jovens que, sem saber, inauguravam algo muito maior.
Com o tempo, o que era pequeno ganhou corpo, voz e propósito. O tatame se expandiu, e com ele os sonhos. A turma cresceu até alcançar cerca de 200 alunos, reunindo crianças, adolescentes e adultos em torno de disciplina, respeito e transformação. Nascia, assim, o projeto A Escola Vai ao Batalhão de Choque, uma iniciativa que ultrapassava os muros da Corporação para construir pontes com a comunidade do Bairro América, onde o batalhão estava sediado.
À medida que a iniciativa ganhava força, novas oportunidades surgiam. Além das artes marciais, passaram a ser oferecidos cursos de corte e costura, design de sobrancelhas e empreendedorismo. O que antes era apenas prática esportiva transformou-se em ferramenta de cidadania e geração de renda, alcançando famílias inteiras.
Assim, entre quedas e recomeços no tatame, o projeto foi se firmando como um gesto concreto de aproximação entre polícia e sociedade. “O projeto, inicialmente intitulado A Escola Vai ao Batalhão de Choque, nasceu com o propósito de aproximar a comunidade da Polícia Militar. A ideia era justamente retomar o diálogo e a construção de confiança com a sociedade, promovendo uma visão mais humanizada do policial militar, mostrando que, por trás da farda, existe o pai, o filho, o irmão, o tio. Que temos os mesmos direitos e deveres de qualquer cidadão, e que nosso trabalho é proteger e se conectar com a comunidade”, lembrou o sargento Élvio.
Atualmente, o projeto social atende alunos oriundos de diversas localidades, como os municípios de Barra dos Coqueiros, São Cristóvão e Itaporanga D’Ajuda. Os participantes estão distribuídos nas categorias judô baby, judô kids e judô competição, de acordo com a faixa etária e o nível técnico. Para integrar o projeto, exige-se apenas que o aluno esteja regularmente matriculado na rede pública de ensino e mantenha-se ativo nas atividades escolares, reforçando o compromisso com a educação como parte essencial de sua formação. “Desde o início, o objetivo do projeto é oferecer aulas de judô para quem não pode pagar. Infelizmente, no Brasil, o ensino dessa arte marcial é muito caro. Por esse motivo precisamos promover oportunidades para as pessoas mais carentes. Eu também sou filho de uma oportunidade. Caso eu não tivesse encontrado o judô, não sei se eu estaria nessa perspectiva de pessoa do bem. Eu combinei com Deus que a minha missão é ensinar judô a quem não pode pagar”, ressaltou o sargento.
Prevenção contra a criminalidade
Ao longo de 27 anos de atuação na segurança pública como policial militar, o sargento Élvio consolidou a compreensão de que a prevenção constitui um dos pilares fundamentais no enfrentamento à criminalidade. Sua trajetória profissional sempre foi 38 marcada por iniciativas voltadas ao aperfeiçoamento contínuo dos policiais, sem jamais negligenciar as ações preventivas, especialmente aquelas direcionadas à juventude, com o propósito de afastá-la da violência por meio da prática de arte marcial.
Praticante de judô desde os dez anos de idade, o professor Élvio afirma que a modalidade transcende o aspecto esportivo, configurando-se como uma filosofia de vida voltada à formação do caráter. Segundo ele, o judô ensina o indivíduo a conduzir sua trajetória com equilíbrio, disciplina e respeito, evitando atitudes de agressão, desrespeito ou ofensa ao próximo, essência que se traduz no próprio significado da palavra judô: “caminho suave”.
Nesse sentido, Élvio defende a importância de cultivar valores como empatia e sensibilidade diante da dor alheia, em contraposição a comportamentos marcados pelo egoísmo. Ele ressalta, ainda, que sua experiência na Polícia Militar contribuiu significativamente para o fortalecimento de seu senso de humanidade e respeito ao próximo, sem comprometer a firmeza e a responsabilidade exigidas no exercício da função.
Na prática, o projeto social de judô não se limita ao ensino da modalidade esportiva. Ele vai além, alcançando também o enfrentamento de conflitos pessoais e o apoio direto às famílias atendidas. Em diversas situações, a iniciativa atua de forma solidária, como no caso de uma família que teve parte da casa destruída após fortes chuvas. Diante do pedido de ajuda, houve mobilização para prestar assistência com materiais e suporte emergencial, evidenciando o compromisso social do projeto com a comunidade.
Os exemplos de transformação são numerosos. Entre eles, destaca-se o caso de um menino que ingressou no projeto por volta dos 12 anos de idade e que, à época, tinha como principal referência de sucesso a figura do traficante, aquele que ostentava o melhor carro, as melhores roupas e o maior status na comunidade. Com o acompanhamento e a orientação proporcionados pelo judô, esse jovem passou por um processo de ressignificação de valores e, atualmente, se prepara para ingressar na carreira policial militar.
Nesse contexto, o projeto atua como um verdadeiro direcionador de vidas. A juventude, muitas vezes carente de referências, necessita de um “farol” que a guie. Sem essa orientação, os caminhos podem levar a destinos negativos. O judô, então, cumpre esse papel ao estabelecer disciplina, metas e perspectivas. A partir disso, os jovens são incentivados não apenas na prática esportiva, mas também na construção de um futuro profissional, sendo encaminhados para cursos de qualificação e oportunidades de emprego por meio de parcerias institucionais.
O acompanhamento é contínuo, desde os primeiros passos no esporte até a inserção no mercado de trabalho. Há casos de alunos que iniciaram como faixa branca e hoje, já graduados como faixas marrom e preta, encontram-se empregados, resultado direto das oportunidades viabilizadas pelo projeto.
Outro exemplo marcante é o de uma jovem oriunda do Bairro América, que trabalhava ao lado da mãe na venda de peixes em feira livre. Mesmo diante de limitações financeiras, ela alcançou destaque ao competir na final dos Jogos da Primavera, um dos maiores eventos esportivos de Sergipe, contra uma adversária de maior graduação e melhores condições socioeconômicas. A vitória não apenas simbolizou superação, como também proporcionou à jovem sua primeira viagem para fora de sua comunidade, representando o estado nos Jogos Escolares da Juventude.
“Experiências como essas evidenciam o impacto social do projeto. Sem a atuação conjunta do judô e da Polícia Militar, muitas dessas histórias poderiam ter seguido caminhos distintos. Trata-se de uma forma eficaz de prevenção primária à criminalidade, ainda que seus resultados não possam ser plenamente mensurados em números, mas sim percebidos nas trajetórias transformadas”, comemorou o idealizador do projeto, sargento Élvio Mota.