A valorização dos profissionais de enfermagem, as condições de trabalho e o adoecimento mental da categoria voltaram ao centro do debate nacional após a mobilização realizada recentemente em Brasília, que reuniu profissionais de todo o país. Mais do que a discussão salarial, o movimento reforçou um alerta cada vez mais urgente: quem cuida também precisa ser cuidado.
Em entrevista ao programa Hora da Notícia, a enfermeira Aline Barreto, mestre em Saúde e Ambiente pela Universidade Tiradentes (Unit), doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e especialista em Gestão Social e Políticas Públicas, destacou os desafios enfrentados diariamente por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem.
Segundo Aline, a enfermagem está diretamente na linha de frente do atendimento ao paciente e responde por grande parte da assistência prestada nas unidades de saúde.
“Mais de 60% dos cuidados relacionados ao paciente estão dentro do contexto da enfermagem. É uma atuação que vai além do contato direto, porque também existe todo um trabalho técnico e administrativo realizado nos bastidores”, explicou.
A profissional ressaltou que a rotina da categoria é marcada pelo acompanhamento simultâneo de diversos pacientes, especialmente em unidades de urgência, hospitais e UPAs, onde a demanda costuma ser elevada.
Ela explicou que o sistema de saúde é organizado por níveis de atenção — básico, intermediário e complexo — e que o cuidado ao paciente é direcionado de acordo com a gravidade do caso. No entanto, a falta de profissionais suficientes em muitos setores tem gerado sobrecarga física e emocional.
“Às vezes há poucos profissionais para muitos pacientes, e isso compromete o cuidado. A enfermagem lida diretamente com vidas, por isso não podemos trabalhar com margem de erro”, pontuou.
Aline destacou ainda que a exaustão dos profissionais impacta diretamente a qualidade da assistência oferecida à população. Para ela, o adoecimento mental da categoria é uma preocupação real e crescente.
“A sobrecarga física e emocional afeta diretamente quem presta o cuidado e também o paciente. Hoje já se fala muito sobre doenças relacionadas ao trabalho, como o esgotamento mental, que tem sido cada vez mais frequente entre os profissionais da saúde”, afirmou.
Outro ponto levantado foi a necessidade de cumprimento efetivo do piso salarial da enfermagem. Embora a legislação já tenha sido aprovada, a especialista observou que a aplicação ainda depende das gestões estaduais e municipais, o que provoca desigualdade no repasse dos valores.
“Existe a lei, mas nem sempre o repasse acontece de forma igualitária. Isso varia de acordo com a gestão local”, explicou.
A entrevista também abordou os períodos do ano em que a pressão sobre as unidades de saúde costuma aumentar, como nos meses de maior circulação de viroses e doenças respiratórias, cenário agravado pelas mudanças climáticas e pelas altas temperaturas registradas em Aracaju e em outras regiões.
Além da discussão sobre a rotina hospitalar, Aline chamou atenção para a importância dos hábitos de vida saudáveis como forma de prevenção de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Segundo ela, qualidade do sono, alimentação equilibrada e prática regular de atividade física são fundamentais para a manutenção da saúde.
Ao falar sobre a formação dos novos profissionais, a enfermeira enfatizou que o desafio vai além da capacitação técnica.
“É preciso formar profissionais competentes tecnicamente, mas também humanizados, éticos e preparados emocionalmente para lidar com dor, perda e responsabilidade”, destacou.
Ao final, Aline reforçou a importância de ampliar o debate sobre a valorização da enfermagem e as condições de trabalho da categoria.
“Para que haja um atendimento comprometido com a população, é essencial cuidar também de quem está cuidando”, concluiu.