O que fazer ao encontrar uma taturana ou lagarta? Instituto Butantan orienta

Encontrar uma árvore coberta por lagartas pode parecer apenas uma cena incomum na natureza, mas representa um risco real à saúde. Espécies do gênero Lonomia, conhecidas como taturanas, são capazes de inocular veneno ao entrarem em contato com a pele humana — e, em casos graves, o acidente pode levar à morte. 

Segundo o Instituto Butantan, entre os sintomas do contato com as lonomias estão dor com sensação de queimadura e vermelhidão, às vezes um leve inchaço e mais raramente bolhas. Horas após o contato, o envenenamento pode provocar dor de cabeça, náuseas e mal-estar, que antecedem a alteração na coagulação sanguínea e hemorragias pelo corpo, como nas gengivas e na urina. 

O único tratamento específico disponível é o soro antilonômico, desenvolvido e produzido pelo Instituto Butantan a partir do veneno extraído das próprias lagartas.

Se você mora em um lugar onde há lonomias, pode ajudar nesse processo. Em primeiro lugar, ao encontrar a lagarta, tome cuidado para não se colocar em risco nem prejudicar o inseto. Depois, acione o Centro de Zoonoses do município. A coleta deve ser realizada por equipes capacitadas e que contem com os equipamentos adequados.

“A população tem um papel crucial na identificação das lonomias que, dependendo da região, podem ser encontradas em diferentes épocas do ano. Em muitos casos, moradores de áreas de mata nativa, habitat natural desses insetos, monitoram o surgimento das lagartas e avisam o serviço de saúde para retirada do local e envio para o Butantan”, explica a diretora técnica de produção de soros hiperimunes do Instituto, Fan Hui Wen.

As lonomias têm um ciclo de vida composto por quatro fases: ovo, larva (lagarta), casulo ou pupa e adulto (mariposa), fechando o ciclo de metamorfose completa. “Assim, a criação em cativeiro torna-se muito mais complexa, não se mostrando até o momento exequível. Desta forma, contamos com a parceria de prefeituras e estados, nos quais Centros de Controle de Zoonoses e Vigilância Sanitária fazem a coleta nos locais onde as lonomias são encontradas pela população e nos enviam os exemplares necessários para a produção”, pontua Fan Hui Wen.

A recomendação é nunca tentar coletar o animal sem a supervisão de profissionais especializados. Mas se não for possível aguardar esse apoio, é imprescindível o uso de luvas de borracha e de uma pinça longa para manipulação segura da lagarta. As lonomias coletadas podem ser trazidas para o setor de Recepção de Animais do Instituto Butantan, na cidade de São Paulo.

Geralmente possuem características como cores castanhas, brancas, pretas ou rosadas, com espinhos verdes ou escuros 

Produção do soro

O Brasil é um dos dois únicos países produtores do soro antilonômico, junto com a Colômbia. Com desenvolvimento e produção iniciados pelo Butantan na década de 1990, o Instituto fabrica cerca de 5 mil doses anuais – o número já chegou a 17 mil.

O veneno da lonomia, matéria-prima básica do soro, é obtido por meio de um “extrato” de cerdas da lagarta, que precisam ser cortadas, maceradas e, depois, separadas para obtenção da substância na forma líquida. 

“O processo de desenvolvimento desse soro seguiu passos semelhantes ao da produção dos outros antivenenos, como o soro antiofídico. Precisávamos do veneno da lagarta para produzir um antígeno para imunizar cavalos, para que estes produzissem anticorpos específicos no plasma. Após o plasma ser processado na fábrica de soros, chegamos ao produto capaz de neutralizar o envenenamento sistêmico causado pela lonomia. Este foi o grande desafio na produção. Muitos pesquisadores participaram dessa grande empreitada”, afirma Fan Hui Wen.

As doses produzidas no Butantan são enviadas ao Ministério da Saúde, que distribui o medicamento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). Do Butantan, o soro também já foi enviado para diversos países da América do Sul, salvando vidas de pacientes no Peru, Argentina, Uruguai, Guiana Francesa e Guiana.

O Instituto chegou a receber uma carta de agradecimento do Parlamento Britânico por ter salvado a vida de um inglês de 29 anos que pisou em uma taturana em viagem pela Guiana, em 2023. Com a dificuldade dos médicos em identificar a causa dos sintomas, amigos próximos do jovem, entre eles uma brasileira, procuraram o Hospital Vital Brazil, unidade de saúde que fica dentro do Butantan e é especializada no atendimento de acidentes por animais peçonhentos. A partir desse contato, se iniciou uma força tarefa  para enviar o soro antilonômico ao paciente. O homem teve alta duas semanas depois de receber o antiveneno.

As lonomias são encontradas principalmente em áreas de mata nativa, jardins, pomares e áreas rurais

O Instituto Butantan reforça que o soro não é comercializado diretamente para pessoas físicas ou empresas. A aplicação deve ser feita exclusivamente em ambiente hospitalar, sob supervisão de profissionais de saúde.

Entrega de lonomias no Butantan

Quem recebe: Recepção de Animais do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan
Endereço: Av. Vital Brasil, 1.500 – Bairro Butantã – São Paulo/SP
Quando: de 2ª a 6ª, das 8h às 17h (exceto feriados)
Mais informações: (11) 2627-9885/9526

Hospital Vital Brazil

Atendimento 24h especializado no atendimento a acidentes causados por animais peçonhentos, inclusive lagartas.
Endereço: Av. Vital Brasil, 1.500 – Bairro Butantã – São Paulo/SP
Quando: aberto 24h por dia
Esclarecimento de dúvidas: telefones (11) 2627-9528 / 9529 / 9530, (11) 3723-6969 ou (11) 91472-2902 (disponível somente para ligações)

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