Por trás das medalhas e das apresentações de precisão quase milimétrica da ginástica rítmica brasileira, há um trabalho silencioso, técnico e decisivo: o da fisioterapia esportiva. É nesse campo que a sergipana Marceli Mesquita se destaca no cenário nacional ao integrar a equipe responsável pela preparação das atletas campeãs do Pan-Americano de Ginástica 2026. Além da atuação no esporte de alto rendimento, Marceli também integra a formação de novos profissionais da área da saúde como preceptora do curso de Fisioterapia da Estácio, conectando a vivência prática com o ambiente acadêmico e contribuindo diretamente para a qualificação de futuros fisioterapeutas. Ela destaca que no esporte de alto rendimento, a fisioterapia deixou de ser apenas reabilitação e passou a ocupar papel central na construção do desempenho. “A fisioterapia tem um papel fundamental na prevenção de lesões, no controle das demandas físicas e na manutenção da performance”, diz. Sergipana, Marceli representa uma geração de profissionais que vêm ampliando sua atuação no esporte de alto rendimento e também na formação acadêmica. Esse elo entre universidade e prática profissional fortalece a formação dos estudantes e aproxima a teoria dos desafios reais enfrentados na área esportiva. No meio dessa rotina intensa entre treinos, viagens, atendimentos e ensino, ela também concilia a maternidade, experiência que, segundo ela, trouxe ainda mais propósito à carreira. “A maternidade trouxe ainda mais sentido para minha trajetória. Mesmo nos dias mais difíceis, ela é minha principal motivação”, afirma. Para quem deseja atuar na área esportiva, Marceli reforça que a base acadêmica é determinante. “O diferencial começa na universidade, com busca por conhecimento, estágios e vivência prática”, orienta. Na entrevista a seguir, Marceli explica o papel e a importância do fisioterapeuta na prática esportiva.
Correio de Sergipe/AJN1- Como surgiu o convite para integrar a equipe responsável pela preparação das atletas campeãs do Pan-Americano de Ginástica 2026?
Marceli Mesquita – O convite surgiu a partir da minha atuação junto à equipe de fisioterapia da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica de Conjunto. Como fazemos parte da rotina diária das atletas e acompanhamos de perto todo o processo de preparação, treinamento e evolução ao longo da temporada, a nossa participação nas competições acontece de acordo com o planejamento da equipe e nossa disponibilidade profissional.
Correio de Sergipe/AJN1- Qual foi exatamente o seu papel dentro desse trabalho de preparação das atletas?
Marceli – Nosso principal objetivo é garantir que as atletas estejam preparadas para suportar as altas demandas físicas e técnicas da ginástica, reduzindo riscos e favorecendo o desempenho esportivo. Dentro da rotina diária no ginásio, iniciamos os treinamentos com exercícios preventivos individualizados, selecionados de acordo com as principais demandas da modalidade, envolvendo mobilidade articular, ativação muscular, estabilidade e controle neuromuscular. Durante os treinamentos, sempre há um fisioterapeuta acompanhando a sessão, realizando o monitoramento das atletas e estando disponível para qualquer intercorrência, desconforto ou alteração que possa interferir na qualidade do treino.
Correio de Sergipe/AJN1 – Como é o acompanhamento destes atletas?
Marceli – Após os períodos de treinamento, realizamos o processo de recuperação (recovery), com avaliação dos sintomas, estratégias para controle da dor e manejo das demandas físicas do dia, utilizando recursos fisioterapêuticos quando necessário, além de técnicas de terapia manual e cuidados individualizados, principalmente para aquelas atletas que apresentam maiores necessidades naquele momento.
Correio de Sergipe/AJN1 – Qual o papel do fisioterapeuta nos esportes de alto rendimento?
Marceli – Uma das funções mais importantes do fisioterapeuta no alto rendimento é a comunicação constante com todos os profissionais envolvidos — técnicos, preparadores físicos, médicos e demais membros da equipe multidisciplinar — para que as decisões sejam tomadas de forma integrada e sempre buscando preservar a saúde e o desempenho das atletas.
Correio de Sergipe/AJN1 – Em uma competição de alto rendimento, qual é a importância da Fisioterapia para o desempenho e para a prevenção de lesões?
Marceli – A fisioterapia tem um papel fundamental no alto rendimento, atuando na prevenção de lesões, no controle das demandas físicas e na manutenção da performance das atletas. Através de estratégias preventivas, acompanhamento diário e intervenções individualizadas, buscamos que a atleta esteja preparada para competir em alto nível, reduzindo riscos e favorecendo sua melhor performance.
Correio de Sergipe/AJN1 – Existe algum momento dessa experiência que tenha marcado você emocionalmente ou profissionalmente?
Marceli – O momento que mais me marcou foi o final da competição. Ver as atletas entregando tudo aquilo que construímos diariamente, conseguindo executar suas séries com segurança, representando todo o trabalho realizado e finalizando a competição bem fisicamente foi muito especial. Para nós, que acompanhamos a rotina, os desafios e toda a preparação, aquele momento representa muito mais do que um resultado. Representa a dedicação, o comprometimento e o trabalho integrado de toda a equipe em busca do melhor desempenho dessas atletas.
Correio de Sergipe/AJN1 – Quais são os maiores desafios de trabalhar com atletas que competem em nível internacional?
Marceli – Além da rotina intensa de treinamentos e competições, um dos maiores desafios é o gerenciamento das demandas físicas das atletas, principalmente em períodos de aumento de volume e intensidade dos treinos. Precisamos estar atentos aos sinais do corpo, garantindo que elas consigam manter o alto desempenho com segurança.
Correio de Sergipe/AJN1 – O que muda na rotina e na responsabilidade de um fisioterapeuta quando o objetivo é alto desempenho?
Marceli – À medida que as atletas evoluem e passam a competir em nível mundial, as exigências aumentam. A busca por séries cada vez mais precisas e melhores resultados, exige muito da preparação física e do controle das demandas do corpo.
Correio de Sergipe/AJN1 – Como essa experiência contribui para sua atuação como preceptora e para a formação dos alunos da Estácio?
Marceli – As experiências que vivencio no alto rendimento me permitem aproximar os alunos da realidade do esporte, mostrando além da teoria de como é a rotina, os desafios e as responsabilidades da fisioterapia esportiva na prática. Além disso, essa vivência inspira e desperta o interesse daqueles que desejam seguir nessa área, mostrando as possibilidades de atuação profissional.
Correio de Sergipe/AJN1 – Que aprendizados você pretende levar para dentro da sala de aula e para a prática com os estudantes?
Marceli – Quero mostrar aos alunos que a fisioterapia esportiva exige uma formação que reúna conhecimento teórico, prática clínica e capacidade de trabalhar em equipe multidisciplinar. É uma área que exige muita dedicação, atualização constante e comprometimento, pois envolve uma rotina intensa, com viagens e grandes responsabilidades. Minha intenção é aproximar os estudantes dessa realidade e prepará-los para os desafios da profissão.
Correio de Sergipe/AJN1 – Você concilia diferentes papéis, mãe, fisioterapeuta, educadora e profissional do esporte. Como consegue administrar tantas responsabilidades?
Marceli – Antes de ser mãe, a rotina profissional era mais simples de organizar, mas hoje conciliar todos esses papéis é um dos meus maiores desafios. Busco equilibrar minha dedicação à fisioterapia esportiva, à educação e à minha família, mantendo sempre o compromisso de continuar aprendendo e evoluindo profissionalmente. A maternidade trouxe ainda mais propósito para minha caminhada e é uma das minhas maiores fontes de motivação. Mesmo nos dias mais cansativos, é ela que me dá força para sair de casa e entregar o meu melhor em tudo que faço.
Correio de Sergipe/AJN1 – Em algum momento você pensou em desistir da carreira ou encontrou obstáculos importantes? Como superou?
Marceli – Nos primeiros meses da licença maternidade, voltar para a rotina e para a mesma intensidade profissional parecia uma realidade distante. Foi um período de adaptação, em que precisei respeitar meu tempo e viver um dia de cada vez, sem me cobrar tanto. Aos poucos fui entendendo que cada fase tem seus desafios e que aquele momento também fazia parte da minha trajetória. Coloquei na cabeça que estava entregando o melhor que eu conseguia naquele momento e isso que foi me ajudando a cada dia ir progredindo.
Correio de Sergipe/AJN1 – O que esse reconhecimento representa para sua trajetória profissional?
Marceli – Representa a recompensa por um trabalho construído diariamente, muitas vezes com uma rotina intensa e desafiadora, mas sempre feita com muito comprometimento e paixão pela fisioterapia esportiva. Esse reconhecimento simboliza não apenas uma conquista pessoal, mas também a valorização de todo o esforço, dedicação e cuidado envolvidos no acompanhamento das atletas e na busca constante por oferecer o meu melhor.
Correio de Sergipe/AJN1 – Qual conselho você daria aos alunos de Fisioterapia que sonham em atuar no esporte de alto rendimento?
Marceli – Meu principal conselho é: estudem e aproveitem a graduação como o momento de construir uma base sólida. O diferencial de um profissional começa dentro da universidade, através da busca por conhecimento, participação em projetos, estágios e da vontade de aprender além do que é oferecido em sala de aula. A fisioterapia esportiva exige dedicação, atualização constante e muita prática. As oportunidades aparecem para aqueles que estão preparados, então é importante começar a construir essa trajetória desde a formação.
Correio de Sergipe/AJN1 – O que as pessoas ainda não entendem sobre o trabalho do fisioterapeuta esportivo?
Marceli – Muitas pessoas ainda associam o fisioterapeuta esportivo apenas ao tratamento de lesões, mas nossa atuação vai muito além disso. O trabalho começa antes da lesão acontecer, com prevenção, preparação física, acompanhamento das demandas do esporte e estratégias para manter o atleta saudável e performando em alto nível.
Correio de Sergipe/AJN1 – Depois dessa conquista, quais são os próximos objetivos profissionais?
Marceli – Com certeza, um dos grandes objetivos é continuar fazendo parte desse processo e buscar a oportunidade de estar nas Olimpíadas de Los Angeles 2028.
Correio de Sergipe/AJN1 – Se pudesse resumir essa experiência em uma frase para inspirar seus alunos, qual seria?
Marceli – Não existe conquista no alto rendimento sem dedicação, estudo e paixão pelo que se faz. Cada dia de aprendizado e cada desafio enfrentado constroem o profissional que você deseja ser. Acredite no processo, porque grandes oportunidades chegam para quem está preparado.
Fonte: AJN1