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Mapeamento revela dinâmica da superfície de água no Brasil e reforça urgência da restauração de ecossistemas

A superfície de água no Brasil vem diminuindo e se tornando mais instável ao longo das últimas quatro décadas, como mostra a nova coleção do MapBiomas Água (de 1985 a 2025). O levantamento revela uma tendência de redução da área coberta por água no país e reforça os desafios para a segurança hídrica em um contexto de mudanças climáticas e transformações aceleradas no uso da terra.

Em 2025, foram identificados 18,2 milhões de hectares de água (o equivalente a duas vezes o território de Portugal) – um aumento de pouco mais de 5% do registrado para o ano anterior. Ainda assim, a última década apresentou uma redução de 2,6 milhões de hectares em relação ao registrado na década de 1985 (Figura 1), e 0,3 milhão de hectares abaixo da média histórica (1985 – 2025).

Mais do que um retrato da disponibilidade hídrica superficial, os dados ajudam a compreender a relação entre a ocupação do território e a dinâmica da água nas paisagens brasileiras. Para o WWF-Brasil, o cenário reforça a importância de investir em conservação e restauração de ecossistemas como estratégias para aumentar a resiliência hídrica, climática e ambiental do país.

Os biomas Cerrado e Pantanal pedem ajuda

Dentre todos os biomas brasileiros, o Pantanal é o que possui a maior dependência do ciclo hidrológico da sua bacia hidrográfica, que regula os pulsos de inundação que o caracterizam como a maior planície inundável contínua do planeta. Paralelamente, foi o bioma com a maior perda histórica de superfície de água.

A média histórica (1985 – 2025) de superfície de água para o Pantanal é de 1,56 milhão de hectares. No entanto, o bioma não ultrapassa esse valor desde 1992. Embora o aumento da precipitação na região no último ano tenha contribuído para a cheia da planície pantaneira, quando o rio Paraguai e seus principais afluentes transbordam, o ano de 2025 registrou 679 mil hectares de água: 56% abaixo da média histórica e 34% acima do que foi mapeado em 2024, o segundo ano mais seco já registrado (cerca de 366 mil hectares).

O mapeamento do histórico de superfície de água e mudanças no uso da terra também revela uma acelerada conversão de áreas naturais para uso agropecuário na região das cabeceiras dos rios do Pantanal, e uma sequência recente de eventos extremos, incluindo secas severas, aumento de incêndios e impactos de eventos climáticos como El Niño, evidenciando um sistema hídrico sob estresse no bioma pantaneiro.

Já para o Cerrado, o mapeamento de 2025 apresentou um aumento de 0,4% (9 mil hectares) na superfície de água em relação ao ano anterior. Porém, esse aumento foi detectado em corpos hídricos antrópicos (criados pela ação humana), como reservatórios, hidrelétricas ou aquicultura. O Cerrado foi o bioma com a maior transição de superfície de água para uso antrópico, com um aumento de 87% (496 mil hectares) desde 1985. No mesmo período, o bioma perdeu 38,4% (348 mil hectares) de água em corpos hídricos naturais.

Esse histórico revela pressões crescentes sobre um dos principais reguladores hídricos do Brasil, que permanece pelo terceiro ano consecutivo como o bioma com a maior área desmatada, segundo o Relatório Anual de Desmatamento de 2025.

O Cerrado abriga as principais nascentes, rios e áreas de recarga que abastecem o país: oito das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras estão no Cerrado, das quais sete apresentaram redução na superfície de água desde 1985. Algumas delas, como a Bacia do rio Paraguai, que se inicia em região Amazônica e de Cerrado, têm papel fundamental na produção hidrelétrica do Brasil e na disponibilidade hídrica de países vizinhos. Outras bacias, como a do rio Tocantins, segundo maior rio brasileiro em extensão, nascem no Cerrado e são vitais para a sobrevivência de outros grandes rios – neste caso, o Amazonas, e populações que o margeiam.

Também é nesse bioma que estão cerca de 30 milhões de pessoas que dependem da água, incluindo povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, geraizeiros, populações urbanas e, ainda, cerca de 30% da biodiversidade brasileira.

Relação entre uso da terra e superfície de água

A conversão de áreas naturais para usos antrópicos modifica o ciclo da água: reduz a capacidade do solo em absorver as águas da chuva, compromete a recarga de aquíferos e altera o regime hídrico dos rios, tornando-os mais intermitentes e vulneráveis a eventos climáticos (secas e enchentes). Ao mesmo tempo, a supressão de vegetação nativa desprotege o solo e tende a aumentar o escoamento da água no terreno, o que facilita e intensifica os processos de erosão e assoreamento dos rios.

Atividades que degradam o solo enfraquecem a resiliência hídrica dos territórios, deixando a biodiversidade e as populações mais expostas à baixa disponibilidade de recursos hídricos, ou ao comprometimento da qualidade da água. Em um cenário de variabilidades climáticas intensificadas pela acelerada ocupação de áreas naturais.

“O Cerrado é o berço das águas do Brasil. Quando há uma perda expressiva de vegetação nesse bioma, também é perdida parte da capacidade de contribuição hídrica que ele provê aos territórios ou outros biomas, seja superficialmente pelos rios, ou seja pelos aquíferos”, disse Maria Eduarda Coelho, analista de Conservação do WWF-Brasil.

As Soluções Baseadas na Natureza são parte da resposta

A restauração de ecossistemas e a adoção de outras Soluções Baseadas na Natureza (SbN) emergem como estratégias essenciais para fortalecer a resiliência hídrica nas paisagens. Os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) colocam a adoção de SbN como uma das cinco principais estratégias para mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Para o WWF-Brasil, os dados do MapBiomas reforçam a necessidade de integrar agendas que historicamente foram tratadas separadamente. Secas extremas ou eventos de inundação em algumas regiões do Brasil não são apenas resultados da variabilidade climática, eles também refletem decisões sobre como usamos o território. A restauração da vegetação nativa, especialmente áreas estratégicas como as Áreas de Preservação Permanente (APP) e zonas de recarga, é fundamental para recuperar a capacidade natural das paisagens de armazenar, infiltrar e regular o ciclo da água.

Ao recompor a vegetação e/ou implementar outras SbN, como práticas sustentáveis de manejo do solo, é possível não apenas reduzir perdas, mas também contribuir para a recuperação da superfície de água ao longo do tempo, o que aumenta a resiliência hídrica da paisagem, aumenta a produtividade da terra e provê água em quantidade e qualidade para as populações beneficiadas – é o que mostra um estudo do WWF-Brasil de 2025, “O Valor da Restauração”, que levanta os benefícios socioeconômicos e ambientais das SbN nas cabeceiras do Pantanal frente aos custos de implementações.

Fortalecer a resiliência hídrica do país exige ações coordenadas, investimento em implementação de SbN em escala, e uma visão integrada entre adaptação climática, promoção da biodiversidade e gestão sustentável dos recursos hídricos.

Sobre MapBiomas Água

Iniciativa de mapeamento anual e mensal da dinâmica da água superficial para todo o território nacional desde 1985. A série histórica do MapBiomas Água foi construída a partir do processamento de imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7, 8 e 9 de 1985 a 2025. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área coberta por água em cada pixel de 30 m x 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos mais de 40 anos entre 1985 e 2025. O método também permite identificar a área com cobertura de água em cada mês em todo o período, bem como as transições e tendências. Os dados podem ser encontrados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada para qualquer período entre 1985 e 2025 na plataforma aberta a todos. A plataforma também apresenta o Módulo de Bacias Hidrográficas, com dados transversais do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas (ANA) organizados por bacias hidrográficas, comitês de bacias e outros recortes territoriais, disponível em bacias.mapbiomas.org.

Sobre MapBiomas:

Rede multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta rede alimenta a plataforma que é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa. Além disso, a rede MapBiomas ampliou-se para outros 13 países, como também gera outros produtos como MapBiomas Alerta, MapBiomas Fogo, MapBiomas Água, MapBiomas Degradação e MapBiomas Solo.

 

 

Fonte: AJN1

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