Ao menos 157 pessoas morreram e centenas de turistas estão desaparecidos após uma grande enxurrada repentina e um deslizamento de terra na fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26/8).
O balanço foi atualizado às 20h30 no horário local (11h30 no horário de Brasília).
Entre os desaparecidos estão quase 579 viajantes, sendo 466 estrangeiros e 61 nepaleses, segundo a atualização mais recente do Conselho de Turismo do Nepal.
Os estrangeiros são de 28 países diferentes. Há 133 desaparecidos da Índia, 54 dos Estados Unidos e 33 do Reino Unido.
Uma lista preliminar divulgada também incluía 17 malaios, quatro sul-africanos, um australiano e um holandês — e outras dezenas de pessoas cuja nacionalidade ainda não foi confirmada.
Segundo o NTB, a maioria seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, e a rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.
O Itamaraty afirmou que, até o momento, não há informações sobre brasileiros desaparecidos.
Nepal confirma mais de 150 mortos
No Nepal, autoridades locais confirmaram 157 mortos, mas ainda não há uma estimativa precisa dos danos. Um porta-voz disse à BBC que a dimensão da destruição está “além da imaginação”.
O distrito de Chitwan registrou o maior número de mortes, 33. Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, também foram atingidos.
Há registro de destruição de estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli.
A polícia disse que está trabalhando para levar moradores de áreas de risco para locais seguros e realizar operações de resgate e busca.
Militares, policiais e trabalhadores do setor de energia estão entre as centenas de desaparecidos após as devastadoras enxurradas no Nepal.
São 44 militares, 28 policiais, 13 policiais armados da força paramilitar e 60 trabalhadores de projetos de energia entre os desaparecidos, além de funcionários da alfândega e da imigração.
O primeiro-ministro, Balendra Shah, afirmou que o país está “em choque e profundamente abalado” pela perda de vidas e pelos danos causados pelas enxurradas.
Em uma publicação nas redes sociais, ele classificou o desastre como “repentino” e “de grandes proporções” e prestou condolências às vítimas e suas famílias.
Shah também afirmou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate.
Ao lado da China e da Índia, o Nepal abriga oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha.
Como um dos países mais pobres do mundo, a economia do Nepal depende fortemente de ajuda externa e do turismo.
‘Grandes perdas de vida’ no lado tibetano
A mídia estatal chinesa CCTV também relatou “grandes perdas de vidas” no lado tibetano da fronteira, controlado pela China.
Até o momento, a CCTV relatou três mortos e 265 desaparecidos.
O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate “total” para localizar os desaparecidos no Tibete, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres.
O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.
Yee Liang, empresário chinês baseado em Kathmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal.
Segundo ele, não havia alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa — desta vez, disse, a situação “parece muito mais grave”.
Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete.
Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.
O que causou a enchente
Até o momento, a principal hipótese é que uma avalanche de gelo tenha dado início a uma sequência de eventos.
Liz Stephens, professora de Risco Climático e Resiliência na Universidade de Reading, explicou que grandes volumes de gelo e rocha podem ter aumentado o nível do rio e provocado uma forte elevação repentina da água.
A avalanche também pode ter bloqueado temporariamente o rio, formando uma espécie de barragem. Quando essa barreira se rompeu, uma grande quantidade de água e sedimentos pode ter avançado rio abaixo.
O terreno difícil do Himalaia, inclusive no Tibete, seria o principal motivo para a ocorrência da avalanche.
Por isso, especialistas tentam analisar imagens de satélite, mas as nuvens de monções não têm ajudado muito desta vez, segundo eles.
No entanto, autoridades do Departamento de Meteorologia e Hidrologia do Nepal afirmam que um enorme bloco de gelo (talvez parte de uma geleira) parece ter desabado de uma montanha no lado tibetano, levando consigo rochas e outros sedimentos.
Segundo eles, isso pode ter gerado um certo volume de água por causa do atrito entre as rochas e o gelo durante a queda. Os detritos restantes de rochas e sedimentos criaram uma represa no rio Lhende, abaixo, obstruindo inicialmente seu fluxo, mas, por fim, fazendo com que a barreira se rompesse.
Alguns acadêmicos nepaleses na China dizem ter recebido relatos semelhantes de alguns especialistas chineses. Mas a agência de notícias chinesa Xinhua, em uma publicação no X, chamou o fenômeno de deslizamento de lama no Nepal.
Mas a verdadeira causa será conhecida quando imagens de satélite mais nítidas forem obtidas e verificadas por múltiplas fontes.
Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, afirmou que um terremoto havia sido registrado na região por volta das 8h37 (horário local), o que poderia ter provocado um deslizamento de terra que resultou em uma inundação repentina.
Mas uma análise do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indica que um deslizamento de terra precedeu a inundação repentina no Nepal e que não houve um terremoto.
“Esse evento foi inicialmente registrado como um terremoto de magnitude 4,4”, afirmou o órgão.
“Análises adicionais de ondas sísmicas de longo período indicam que a energia sísmica foi, na verdade, gerada por um deslizamento de terra.”
O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
Resgates em andamento
As equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes.
O gabinete do primeiro-ministro do Nepal, Balen Shah, informou que os esforços de busca e resgate realizados pelo Exército do país continuarão durante a madrugada.
A operação envolve 1.697 militares, enquanto outros 656 foram mantidos de prontidão para operações adicionais.
Seis helicópteros militares resgataram 94 pessoas ao longo do dia, enquanto cinco helicópteros civis resgataram outras 12. Equipes em terra resgataram mais 27 pessoas, diz o comunicado.
Um grande número de pessoas isoladas acima da cidade de Timure, em Rasuwa, será evacuado por via aérea na manhã de quinta-feira, acrescenta o gabinete.
Um porta-voz do Exército do Nepal disse à BBC que 88 sobreviventes já haviam sido resgatados, com tropas tentando resgatar outras 115 pessoas na vila de Mailung.
Autoridades sul-coreanas informaram que oito cidadãos do país, que trabalhavam na construção de uma usina hidrelétrica na região, estão “incomunicáveis”, enquanto outros dez sul-coreanos aguardam resgate. O governo nepalês enviou um helicóptero para socorrê-los.
O ministro das Relações Exteriores da índia, Subrahmanyam Jaishankar, informou que o país enviou 10 toneladas de ajuda ao Nepal para auxiliar na resposta à emergência.
“Nossos pensamentos estão com as famílias das vítimas e todos os afetados. Diante deste desafio, a Índia está ao lado do Nepal e de seu povo”, disse em uma publicação no X.
Fonte: AJN1