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Nico Rezende: quatro décadas de música, sucessos eternos e novos caminhos na carreira

Por Cyntia Menezes

Algumas músicas atravessam gerações. E alguns artistas continuam se reinventando sem perder a essência que os fez chegar tão longe.

Nico Rezende é um desses nomes. Com mais de quatro décadas dedicadas à música, ele carrega na trajetória encontros com grandes nomes da MPB, sucessos que permanecem na memória do público e trabalhos que ajudaram a construir importantes capítulos da música brasileira.

Mas essa história está longe de chegar ao fim. Aos 65 anos, Nico vive um momento de intensa atividade artística: segue fazendo shows pelo Brasil, realiza turnês internacionais, especialmente na Itália, e prepara novos projetos, incluindo um novo DVD.

Entre o passado que deixou marcas e um presente cheio de novos caminhos, Nico continua compondo, cantando, tocando e levando sua música para diferentes públicos.

E foi justamente para revisitar essa trajetória — e entender o que ainda move esse artista — que começamos nossa conversa pela memória: quando olha para mais de quatro décadas de carreira, qual é a primeira lembrança que vem à sua cabeça?

1. Nico, você tem uma trajetória de mais de quatro décadas e participou de momentos muito importantes da música brasileira. Quando olha para essa história, qual é a primeira lembrança que vem à sua cabeça?

Quando olho para trás, lembro de quando comecei a tocar nos conjuntos de baile, ainda aprendendo. Essas experiências na estrada, ainda adolescente, foram fundamentais para a minha formação musical e para o músico que me tornei.

Aos 25 anos, produzi um álbum icônico do Cazuza, Exagerado, sem ter ideia da dimensão do que estava fazendo. Na mesma época, também escrevia arranjos de cordas e metais para Roberto Carlos. Eu era meio “doidinho”, porque não tinha noção da responsabilidade que carregava.

Acho que a vida é um pouco assim: a gente precisa se atirar nas coisas, tentar e colocar a nossa marca, a nossa assinatura. Hoje, vejo tudo isso com muita felicidade e até perplexidade diante de tudo o que aconteceu nesses mais de 40 anos.

E acredito que a vida está sempre começando quando a gente está com a cabeça boa e no lugar.

2. Você começou tocando com Ritchie, viveu a fase de sucesso de “Menina Veneno” e depois integrou a banda de Lulu Santos. O que esses dois artistas ensinaram ao Nico músico e ao Nico que estava começando a construir sua própria carreira?

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, vim com um convite para fazer um teste para a banda de um inglês. Era tudo muito sigiloso: era a banda do Ritchie.

Fomos aprovados eu e Torcuato Mariano, que é um grande produtor e músico de muito sucesso. Vivemos toda aquela fase de Menina Veneno, tocando pelo Brasil e pela América do Sul.

Era uma loucura. Nos hotéis em que ficávamos, havia filas e mais filas, até com anéis duplos de fãs querendo conseguir um autógrafo do Ritchie.

Depois de três anos, fui para a banda do Lulu Santos. Os dois foram artistas muito importantes para mim porque tive contato direto com a pop music, com a síntese e com uma linguagem mais minimalista.

O Lulu foi o cara que me iniciou. Depois de alguns anos na banda, quando minhas primeiras músicas começaram a ser gravadas e a fazer sucesso, ele saiu do palco e disse para o público: “Com vocês, Nico Rezende”.

Eu cantei três músicas com a banda dele e aquilo acabou virando um número do show. Então posso dizer que o Lulu foi o cara que me lançou no mundo, na frente do palco.

Também tive o privilégio de fazer arranjos para os dois e aprendi muito com essas experiências. Foram momentos sensacionais ao lado de dois artistas incríveis.

3. “Esquece e Vem”, “Perigo” e “Transas” chegaram ao primeiro lugar nas paradas. O que você acredita que essas canções tinham — e ainda têm — para permanecer tanto tempo na memória do público?

Esquece e Vem, Perigo e Transas são parcerias com Paulinho Lima. A gente juntava a nossa linguagem musical com a forma de escrever dele, que é muito direta.

São letras que não precisam de muitos subterfúgios ou metáforas complexas. Como em “Perigo é ter você perto dos olhos, mais longe do coração” ou “Transe é quando se quer mais e a gente diz bye-bye”.

Acho que essa objetividade pegou muito nessas canções, além da questão melódica e do instrumental. Elas foram gravadas, inclusive, com a mesma banda.

O fato de essas músicas continuarem fazendo sucesso quatro décadas depois tem muito a ver com a força das letras e com as memórias afetivas que elas criaram nas pessoas.

É muito gratificante ver pais apresentando essas canções aos filhos e perceber que elas continuam vivas. Espero que permaneçam por muito mais tempo.

4. Você esteve por trás de um trabalho muito marcante, Exagerado, de Cazuza. Como foi participar da criação e dos arranjos de um álbum que se tornou tão importante para a música brasileira?

Participar de Exagerado foi uma coisa incrível. Eu já tinha gravado com o Barão Vermelho a faixa Amor, Amor, para o filme Bete Balanço.

Quando o Cazuza ia sair do Barão, ainda era tudo um segredo, e ele e o Zeca, o Ezequiel Neves, me procuraram para produzir e fazer os arranjos daquele álbum, que ainda nem tinha nome.

Eu fui recebendo as canções e criando a linguagem do disco, com uma pegada de rock and roll misturada com MPB. A ideia era fazer uma intersecção entre a MPB antiga e o rock.

Conseguimos isso em faixas como Codinome Beija-Flor, que saía um pouco daquele universo do rock and roll, mas mantinha a pegada que o Cazuza tinha ao cantar, independentemente de estar acompanhado por guitarra, piano ou cordas.

Acho que o sucesso do álbum veio de uma conjunção de fatores: o trabalho do Cazuza, essa intersecção com a MPB e uma banda que montamos no estúdio e que deu muita liga.

É um álbum icônico e tenho muito orgulho de ter participado dele.

5. Como arranjador e produtor, você trabalhou com nomes como Roberto Carlos, Gal Costa, Marina Lima, Zizi Possi, Simone, Erasmo e tantos outros. Existe algum encontro ou trabalho que tenha deixado uma marca especialmente forte na sua trajetória?

Em cada trabalho aprendi uma coisa muito importante: quando você é arranjador ou produtor, aquele não é o seu álbum. A coisa mais importante é colocar a sua musicalidade a serviço daquele artista e trabalhar para o sucesso dele.

Você não pode tentar impor as suas coisas. É preciso se moldar ao trabalho do artista, colocar o seu conhecimento e o seu tempero, para que o resultado seja verdadeiro e tenha uma impressão de verdade.

Entre tantos trabalhos, destaco especialmente a Marina Lima, com quem fiz dois álbuns: Fullgás e Todas, que inclui uma música minha com o falecido Cícero.

Tenho uma química muito boa com a Marina. Algumas pessoas até me chamavam de “a versão masculina da Marina”, por causa dessa sofisticação harmônica. E acho muito interessante conseguir ser popular mantendo toda essa sofisticação.

6. Seu show “Sucessos” mistura suas próprias músicas com canções das quais você participou como músico, produtor ou arranjador. Que emoção você sente ao ver o público cantando músicas que fazem parte da história da sua vida?

O show Sucessos nasceu justamente dessa mistura entre minhas próprias canções e músicas das quais participei de alguma forma, como Exagerado, Bete Balanço, Adivinha o Quê, Codinome Beija-Flor, Perigo, Transe, Esquece, Vem e Signo de Ar, que compus com Versículo.

No meio do show, também faço uma pequena homenagem a autores que conviveram comigo e que admiro profundamente, como Dalto, Guilherme Arantes, Vinícius Cantuária e Ritchie. São quatro canções bem dançantes.

É um show muito para cima, talvez o mais para cima que já fiz. A reação do público é de muito entusiasmo e emoção, porque essas músicas fazem parte da vida de muita gente.

Eu toco piano, saxofone e canto, tentando reunir todas as minhas habilidades musicais em um único espetáculo. E isso acaba surpreendendo o público, que talvez não espere algo tão dançante.

Já fiz shows intimistas e apresentações só de baladas, mas esse vai para cima do começo ao fim. É muito legal poder levar esse espetáculo para todos os cantos do Brasil e também para fora do país.

7. Em 2017, você mergulhou no universo de Chet Baker. O que esse artista e o cool jazz despertaram em você e por que essa homenagem continua tão presente no seu trabalho?

Chet Baker foi uma influência da minha adolescência, trazida pelo meu pai. Ele era dentista, tinha um estúdio em casa e escutava muito jazz, música clássica e música brasileira de qualidade.

Eu cresci ouvindo Chet Baker e, desde adolescente, achava aquilo muito bonito. Inclusive, percebia que a voz dele tinha um registro muito parecido com o meu.

O Chet Baker foi um dos grandes nomes associados à criação do cool jazz. E o repertório que escolhi para o DVD que gravei cantando Chet Baker é baseado no álbum Chet Baker Sings, lançado em 1954.

O que me chamou muita atenção naquele disco é que ele traz um jazz com formato pop. As músicas são curtas, de no máximo três minutos, com uma parte A, uma parte B e um pequeno solo melódico. Não existem aqueles improvisos intermináveis que, às vezes, podem soar cansativos para algumas pessoas.

Essa aproximação entre o pop e o jazz me encantou. Então escrevi os arranjos e chamei músicos especialistas nessa linguagem, como Guilherme Dias Gomes, que era trompetista da formação original.

É uma delícia fazer esse show. Já o levei para festivais de jazz pelo país e continuo apresentando algumas vezes. Chet Baker é uma grande influência na minha vida e um artista que admiro profundamente, pelas harmonias maravilhosas e por tudo o que representa.

8. Depois de tantos sucessos e de uma carreira tão diversa, o que ainda move Nico Rezende? Existe algum sonho musical que você ainda queira realizar?

Acho que o importante em uma carreira é ter perspectiva: estudar mais e compor mais.

Eu me sinto muito bem no momento atual. Talvez esteja vivendo o melhor momento da minha carreira em termos de maturidade musical.

Quero compor mais, gravar um novo DVD em dezembro, no Imperator, no Rio de Janeiro, fazer mais shows e continuar produzindo músicas.

Cada show é diferente, e eu quero levar minha música para vários cantos do Brasil e do mundo. Tenho feito turnês anuais para a Itália, que têm sido muito bem recebidas.

Quero continuar tocando, cantando e levando emoção e alegria para as pessoas enquanto tiver energia para fazer isso.

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