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Petrúcio Amorim: uma história escrita em versos, sanfonas e na alma do forró

Por Cyntia Menezes

Com uma trajetória marcada por sucessos que atravessaram gerações, Petrúcio Amorim consolidou seu nome como um dos grandes compositores e intérpretes da música nordestina.

Dono de uma obra que traduz sentimentos, histórias e personagens do cotidiano, o artista ajudou a renovar e fortalecer o forró, levando a identidade nordestina para diferentes públicos e territórios.

Em uma conversa especial, Petrúcio Amorim revisita momentos importantes da carreira, fala sobre a força de suas canções, as transformações do mercado musical e revela o que ainda o move a continuar fazendo música.

Petrúcio Amorim: “Se a música gostar de você, você morrerá com ela”

Cyntia Menezes

1. Petrúcio, quando você olha para toda a sua trajetória, qual foi o momento em que percebeu que sua música tinha ultrapassado as fronteiras do Nordeste e conquistado outras gerações e públicos?

Petrúcio Amorim

Veja só, eu senti essa mudança, essa grande alegria de ver a música ultrapassar as fronteiras, principalmente aqui do nosso Nordeste, quando Flávio José gravou “Tareco e Mariola”.

Para mim, essa música foi um divisor de águas na minha carreira como compositor e também como intérprete.

A música ganhou uma dimensão que eu jamais esperava. Eu tinha gravado essa música no ano anterior e não imaginava que pudesse ter uma projeção tão grande.

Depois, com Flávio José, foi um grande sucesso, e a identificação dos nordestinos com a canção foi muito forte.

“Tareco e Mariola” é uma espécie de desabafo. Só depois as pessoas foram entender a dimensão da música e perceber que não era exatamente uma canção romântica, mas que trazia também um certo tom de protesto.

Ela tomou uma dimensão muito grande e foi uma grande oportunidade de mostrar para o Brasil o que a gente pode fazer de boa música e de bom trabalho.

Na época, foi um grande sucesso na voz de Flávio José.

Cyntia Menezes

2. Suas canções são conhecidas por transformar sentimentos e histórias do cotidiano em poesia. De onde vem sua inspiração para compor?

Petrúcio Amorim

Veja só, a inspiração vem justamente do cotidiano, do nosso povo, do Nordeste e das coisas que a gente vê e escuta.

Pode vir de uma conversa, de uma mesa de bar, da opinião de uma pessoa, de uma frase que eu escuto.

Eu busco muito essas coisas. Tenho várias canções inspiradas em provérbios populares, como “Devagar com a dor que o santo é de barro”, “Boi com sede bebe lama” e “Eu não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”.

São frases e ditados que têm um sentido e uma lógica dentro do nosso universo nordestino. E as pessoas gostam de ouvir esse lado.

Minha inspiração também vem de histórias e sentimentos que chegam até mim.

Muitas vezes, estou sentado em uma mesa de bar conversando com um amigo, o papo se alonga e ele conta uma história sobre um sentimento, sobre uma namorada, sobre alguma coisa que está acontecendo na família ou até uma história de outra pessoa.

Tudo isso vai ficando na minha cabeça.

De repente, quando eu me lembro daquele tema, pego o violão e começo a desenvolver.

Muitas coisas que aconteceram na minha própria vida também acabam entrando nesse processo.

Eu me lembro, por exemplo, de quando Luiz Gonzaga faleceu, em 1989. Eu estava no centro da cidade, e todo mundo comentava sobre aquilo.

No caminho do centro do Recife até onde eu morava, em Janga, Paulista, veio uma frase à minha cabeça: “Lá onde se ouve Beethoven, mora o Rei do Baião”.

A partir dessa frase, construí uma canção muito importante.

Então, eu nunca fui de sentar e dizer: “Hoje eu vou fazer tantas músicas”. Não funciona assim para mim.

Eu tenho um tema para desenvolver e, muitas vezes, vou até tarde da noite trabalhando naquele assunto, até conseguir desenvolver aquele tema e transformar aquela ideia em música.

Cyntia Menezes

3. Ao longo da carreira, grandes artistas gravaram suas músicas. O que passa pela sua cabeça quando você ouve uma composição sua ganhar uma nova interpretação e alcançar um público ainda maior?

Petrúcio Amorim

Eu me sinto muito feliz quando vejo um intérprete cantando minhas canções.

Gosto muito, principalmente, de ouvir uma voz feminina interpretando minhas músicas. É um lado diferente, porque tenho uma voz grave e, quando escuto uma mulher cantando uma composição minha, parece que a música ganha outro aspecto, outro sentimento.

Também adoro ouvir os jovens cantando minhas canções. É uma prova de que a música não morre, está sempre viva.

Isso aconteceu muito durante a pandemia. Como as pessoas ficavam em casa por causa da Covid, acompanhei muitas lives e vi muita gente cantando minhas músicas.

Aquilo enchia meu ego e me dava uma alegria enorme, uma sensação de que a minha música vai ficar eternizada.

Tenho dezenas de intérpretes que já gravaram minhas canções e, às vezes, vários artistas cantam a mesma música.

São músicas de 20, 30 anos atrás sendo cantadas por jovens. Para mim, é uma sensação muito gostosa, porque mostra que, enquanto as pessoas gostarem de boa música e de bom forró, minhas canções continuarão fazendo parte dos repertórios, seja no período junino ou em qualquer outra época do ano.

Eu adoro ouvir gente jovem cantando minhas canções.

Cyntia Menezes

4. O forró passou por muitas transformações ao longo das últimas décadas. Na sua visão, o que mudou e o que precisa permanecer para que a essência da música nordestina continue viva?

Petrúcio Amorim

Ao longo dos anos, o forró passou por várias transformações. Mas é aquela velha história: cada geração tem uma maneira de conduzir a música.

Eu nunca reprovei essas mudanças.

Contanto que seja forró, não importa se muda a batida, se tira um instrumento ou coloca outro.

O importante é que permaneça a essência do forró, que não se perca, principalmente, aquele lado da sanfona.

Cyntia Menezes

5. Existe alguma música sua que tenha um significado particularmente especial na sua vida, seja pela história por trás da composição ou pelo impacto que teve no público?

Petrúcio Amorim

Sim. Existem músicas que tiveram uma importância muito grande na minha carreira e no meu trabalho, não só para mim, mas também para o intérprete.

“Tareco e Mariola” foi uma dessas músicas.

Ela veio para construir e contar um pouco da minha história, mas também para reforçar o trabalho forte de Flávio José.

Foi uma música que ganhou uma dimensão que eu jamais esperava.

Eu conto essa história no meu DVD e, às vezes, nos meus shows.

Eu cheguei à minha cidade, Caruaru, que era considerada a Capital do Forró, uma grande vitrine da música nordestina, e pedi uma oportunidade para cantar.

Recebi um não.

Naquele momento, eu já tinha quase dez anos de carreira e ainda não tinha conseguido uma oportunidade de mostrar meu trabalho em plena Caruaru.

Apesar de todo o esforço e de muita luta para conseguir cantar, voltei para casa triste, pensando muito naquele “não”.

Foi a partir daquela experiência que compus “Tareco e Mariola”.

Gravei a música, mas não tive uma resposta imediata. Eu era um artista independente e não tinha uma grande estrutura de mídia para divulgar o trabalho.

Até que Flávio José ouviu a música e decidiu regravá-la. Com ele, a canção ganhou uma projeção enorme e se tornou um grande sucesso.

Até hoje ela responde muito bem por onde eu canto.

As pessoas se identificam porque existem músicas que não são apenas para você compor e gravar. Elas precisam ter identificação pessoal.

Muitas vezes, uma música nasce de uma experiência íntima, mas consegue repercutir para fora.

Muita gente se identifica com aquela história, e talvez seja justamente por isso que “Tareco e Mariola” tenha ganhado tanta força e se tornado uma das músicas mais representativas do meu trabalho.

Cyntia Menezes

6. Hoje, com as redes sociais e as novas plataformas digitais, o artista consegue chegar diretamente ao público. Como você enxerga essa transformação na maneira de fazer, divulgar e consumir música?

Petrúcio Amorim

A internet mudou muito a maneira de trabalhar.

Eu tenho 67 anos e posso dizer que sou do século passado. Sou daquela época em que você pegava o disco debaixo do braço, ia às rádios pedir para tocar sua música e apresentava seu trabalho pessoalmente.

Depois vieram o CD e o DVD, e as coisas foram diminuindo.

A gente viu a transformação do formato físico e a chegada desse lado mais abstrato, em que você vai ao estúdio, grava e depois coloca o trabalho nas plataformas.

Mudou muito a maneira de divulgar.

Dependendo do aplicativo, da rede social, do Instagram, do YouTube, o trabalho pode ganhar uma amplitude muito maior e uma projeção que antes era mais difícil de alcançar.

Acredito que isso ajuda muito na visibilidade do artista e, principalmente, na possibilidade de conseguir novos shows.

Mas, ao mesmo tempo, sinto uma certa frieza, porque a gente não tem mais um termômetro tão direto.

Antigamente, você sabia que alguém gostava da sua música porque a pessoa ia a uma loja, comprava seu CD ou seu DVD e levava para casa para ouvir.

Existia uma dedicação, um carinho.

Hoje, muitas vezes, a gente não sabe exatamente se as pessoas estão ouvindo porque realmente gostaram da música, se foi por curiosidade ou simplesmente porque viram alguma coisa nas redes sociais.

Para quem é do século passado e acompanhou toda essa trajetória, é difícil entender completamente essa transformação.

A gente ganha visibilidade, consegue mostrar o trabalho e alcançar mais pessoas, mas também fica muito dependente das redes sociais e das plataformas.

E acredito que essa transformação ainda vai continuar, principalmente agora com a inteligência artificial.

Já existem muitos compositores fazendo músicas por meio de aplicativos.

Isso pode complicar ainda mais, porque, muitas vezes, você não encontra ali o mesmo sentimento.

Cyntia Menezes

7. Depois de tantos anos de carreira, o que ainda emociona Petrúcio Amorim quando sobe ao palco ou escuta uma multidão cantando uma de suas músicas?

Petrúcio Amorim

É impressionante.

Depois de tantos anos de carreira e de tanto trabalho, a alegria ainda é enorme quando você sobe ao palco e vê aquela galera cantando junto uma música que você compôs, principalmente quando é uma música de muitos anos atrás.

É espetacular. A gente ainda sente aquele friozinho na barriga.

Hoje, essa energia é ainda maior.

Antigamente, a gente subia no palco e olhava para um público de mil, duas mil ou três mil pessoas.

Hoje, viajamos para diferentes regiões e encontramos públicos de 50, 60 mil pessoas ou até mais cantando nossas músicas.

Isso dá uma emoção muito grande.

É uma prova de que o trabalho está vivo.

Depois de tantos anos batalhando, correndo atrás e acreditando, você olha para aquele público e percebe que todo aquele esforço valeu a pena.

E o que mais me emociona é ver que essa música chega aos jovens e até às crianças.

Quando vejo uma criança cantando uma música minha, penso: quando compus aquela canção, ela nem tinha nascido.

E hoje está ali, cantando e interagindo comigo.

Isso me dá uma esperança enorme de que o forró continuará sempre vivo, com as pessoas dançando, cantando e se divertindo.

É maravilhoso. É a cultura brasileira proporcionando tudo isso.

Cyntia Menezes

8. Se você pudesse conversar com o Petrúcio Amorim que estava começando a carreira, qual conselho daria para aquele jovem compositor que sonhava em viver da música?

Petrúcio Amorim

A primeira coisa que eu diria para o Petrúcio que estava começando é: persista. Persista sempre.

Eu fui um cara muito persistente dentro da minha obra e do meu trabalho.

Recebi muitos “nãos”, muitas reprovações, mas nunca desisti.

Eu sabia que um dia as pessoas entenderiam meu projeto de trabalho, minha música, minha maneira de cantar, minha voz e o sentimento das minhas canções.

Sempre trabalhei com uma linguagem universal, que é o amor.

Então, eu diria para aquele Petrúcio: continue em frente. Vá em frente.

Saiba ouvir as críticas, porque algumas podem ser construtivas e ajudar você a perceber o que precisa melhorar.

Mas não dê ouvido às críticas pejorativas, àquelas que só servem para derrubar você.

Eu gravei muitas músicas e, muitas vezes, pedi orientação a pessoas que não entendiam do meu trabalho. Isso é muito ruim.

Nesse meio em que trabalhamos, existem pessoas que, às vezes, não querem que você vá adiante.

Eu vivi situações assim.

Quando gravava minhas músicas e chegava às rádios com meus CDs, encontrava locutores que também eram artistas e que, muitas vezes, demonstravam não querer que eu prosseguisse.

Mas eu sempre perseverei.

Por isso, eu diria: siga em frente, dê a mão à música.

Porque, se ela gostar de você, você morrerá com ela.

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