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Benito Fernandez alerta para a importância da doação de órgãos e tecidos em Sergipe

Por Barroso Guimarães 

Coordenador da Central de Transplantes de Sergipe destaca a necessidade de conscientização das famílias, esclarece dúvidas sobre o processo de doação e anuncia a expectativa de retomada dos transplantes de coração no estado em 2027.

A doação de órgãos e tecidos pode salvar vidas, mas o medo, a falta de informação e a resistência de familiares ainda representam desafios para ampliar o número de transplantes em Sergipe. O assunto foi abordado pelo coordenador da Central de Transplantes de Sergipe, Benito Fernandez, em entrevista concedida ao jornalista Barroso Guimarães, no programa A Hora da Notícia, da Rádio Aperipê FM 106.1.

Durante a conversa, o especialista esclareceu dúvidas sobre a morte encefálica, os procedimentos para a retirada de órgãos, a autorização familiar e as diferenças entre a doação de órgãos e a de tecidos, como as córneas. Ele também destacou a importância de conversar com os familiares sobre o desejo de ser doador ainda em vida.

Segundo Benito Fernandez, uma das principais barreiras à doação é a associação equivocada entre a morte encefálica e o coma. Ele explicou que, no coma, existe a possibilidade de recuperação, enquanto a morte encefálica corresponde à perda irreversível das funções do encéfalo, diagnosticada por meio de um protocolo médico rigoroso.

O procedimento exige avaliações realizadas por dois médicos diferentes, especificamente capacitados, além de um exame complementar que confirme a ausência de atividade elétrica cerebral, de metabolismo ou de fluxo sanguíneo cerebral, conforme o método utilizado.

O coordenador ressaltou que, após a confirmação do diagnóstico, a família é consultada sobre a possibilidade de doar os órgãos. Ele lembrou que a manutenção artificial da respiração pode fazer o coração continuar batendo por algum tempo, o que frequentemente provoca dúvidas e insegurança entre os familiares.

Caso de jovem vítima de acidente reforça importância da doação

Durante a entrevista, Benito comentou o caso de uma jovem de 18 anos que morreu após um acidente de motocicleta na rodovia entre Moita Bonita e Itabaiana, em Sergipe. A motocicleta em que ela estava colidiu com um cavalo.

A jovem havia manifestado à família, ainda em vida, o desejo de ser doadora. Após a autorização familiar e a conclusão dos procedimentos necessários, foi possível realizar a captação do fígado e das córneas. A doação do coração, entretanto, não foi possível.

De acordo com o coordenador, a paciente sofreu uma parada cardíaca, situação que pode inviabilizar a utilização do coração para transplante. Ele também explicou que a equipe enfrentou dificuldades para manter os parâmetros clínicos necessários à realização do protocolo de morte encefálica.

O caso evidencia que a manifestação do desejo de doar é importante, mas a efetivação da doação depende de uma série de condições médicas, técnicas e legais.

Sergipe registra quatro transplantes renais em um único dia

Outro destaque da entrevista foi a realização de quatro transplantes de rim no Hospital Cirurgia, em Aracaju, na mesma sexta-feira. Segundo Benito Fernandez, o resultado representa um marco para o serviço de transplantes no estado e demonstra a capacidade técnica da equipe envolvida.

O coordenador parabenizou os profissionais responsáveis pelos procedimentos, entre eles a nefrologista Simone e o urologista Diego, além de reconhecer o apoio da direção do hospital, representada por Márcia Guimarães.

Benito também anunciou que a Central de Transplantes está preparando a documentação necessária para encaminhar ao Ministério da Saúde, com o objetivo de obter autorização para a realização de transplantes cardíacos no Hospital Cirurgia.

A expectativa, segundo ele, é que Sergipe volte a realizar transplantes de coração em 2027, com a perspectiva de manter o serviço de forma contínua e ampliar o atendimento aos pacientes que necessitam desse tipo de procedimento.

Mais de 200 pessoas aguardam por córneas em Sergipe

A entrevista também chamou a atenção para a fila de espera por transplantes de córnea. De acordo com os dados apresentados por Benito Fernandez, 237 pessoas aguardavam pelo procedimento em Sergipe, com tempo médio de espera estimado em 12 meses.

O coordenador explicou que a córnea é um tecido transparente localizado na parte anterior do olho, responsável por permitir a entrada da luz. Sua doação pode beneficiar pessoas com doenças que comprometem a visão e prejudicam a qualidade de vida.

Diferentemente de outros órgãos, a córnea pode ser retirada após a parada cardíaca, respeitados os critérios técnicos e o prazo estabelecido para a captação. Segundo Fernandez, esse procedimento pode ser realizado em locais como o Instituto Médico Legal (IML), velórios e necrotérios, desde que sejam atendidas as condições necessárias.

Além das córneas, outros tecidos podem ser utilizados em transplantes, como pele, ossos, tendões e vasos sanguíneos. A retirada desses materiais, porém, exige estrutura apropriada, geralmente em centro cirúrgico.

O coordenador também procurou tranquilizar as famílias em relação à aparência do corpo após a retirada dos órgãos e tecidos. Ele ressaltou que os procedimentos devem respeitar as normas legais, que determinam a preservação da integridade corporal para o funeral.

Autorização familiar é indispensável

Um dos pontos centrais da entrevista foi a necessidade de autorização da família. Benito Fernandez explicou que, no Brasil, a manifestação individual do desejo de ser doador não substitui a autorização legal exigida após a morte.

Embora documentos de identificação possam registrar simbolicamente a intenção de doar, a legislação brasileira determina que a doação de órgãos de uma pessoa falecida depende do consentimento do cônjuge ou de familiar legalmente habilitado.

Por isso, o coordenador recomenda que as pessoas conversem abertamente com seus familiares sobre a intenção de doar. Essa comunicação pode ajudar a evitar dúvidas e facilitar a decisão em um momento de grande sofrimento emocional.

Fernandez também alertou que a recusa familiar pode impedir a realização de uma doação capaz de beneficiar pacientes que aguardam na fila por um transplante. Ele destacou que os avanços médicos e farmacológicos têm contribuído para melhorar os resultados desses procedimentos e ampliar as possibilidades de tratamento.

Caminhada pela vida busca conscientizar a população

Ao final da entrevista, Benito Fernandez convidou a população para participar da Caminhada pela Vida, marcada para o sábado, 31 de outubro, no Parque da Sementeira, em Aracaju. A iniciativa pretende chamar a atenção para a importância da doação de órgãos e tecidos e estimular a solidariedade.

O coordenador também incentivou líderes religiosos a participarem das ações de esclarecimento promovidas pela Central de Transplantes, com o objetivo de combater mitos e ampliar o diálogo sobre o tema nas comunidades.

Segundo ele, a informação correta é fundamental para reduzir o medo e ajudar as famílias a tomar decisões conscientes.

A Central de Transplantes de Sergipe também realiza palestras, rodas de conversa e mesas-redondas para esclarecer dúvidas e divulgar informações sobre o processo de doação.

A mensagem principal deixada por Benito Fernandez é que falar sobre doação de órgãos em vida pode fazer a diferença quando uma família precisar tomar essa decisão. A conscientização e a solidariedade são fundamentais para transformar a possibilidade de doação em novas oportunidades de vida para quem aguarda por um transplante.

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