Ônibus com GPS, câmeras e semáforos inteligentes já reduzem atrasos e aumentam segurança
Por Anne Caroline Santana Guimarães
Aracaju investe em tecnologia para modernizar seu transporte coletivo, mas a eficácia dessas inovações ainda é limitada pela falta de integração e acessibilidade.
A cidade já conta com 15 ônibus 100% elétricos, 150 semáforos inteligentes que priorizam o coletivo, câmeras de segurança internas e externas nos veículos e o sistema “Anjo da Guarda” — dispositivo que bloqueia automaticamente o acelerador se alguma porta estiver aberta — impede a partida do ônibus com portas abertas.
Todos esses recursos estão em operação desde 2023, segundo a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT). Eles ajudam a reduzir acidentes, melhorar a resposta a emergências e otimizar o fluxo nas vias.
“Essas tecnologias já são realidade e trazem ganhos concretos”, afirma Raíssa Cruz, presidente da Setransp – Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Município de Aracaju. “Mas o próximo passo é integrá-las. Temos equipamentos, temos dados, temos capacidade. O que falta é vontade política para unir tudo em um único sistema, onde o passageiro não precise entender quatro apps diferentes, quatro sistemas de pagamento, quatro formas de rastrear seu ônibus. A tecnologia existe. O que falta é coragem para conectá-la.”
App Cittamobi facilita o dia a dia — mas exclui quem não tem acesso
O aplicativo Cittamobi, usado por milhares de passageiros, permite rastrear ônibus em tempo real, planejar rotas e receber alertas de atrasos.
“Consigo ir ao ponto na hora certa. Não fico mais esperando sem saber quando o ônibus vem”, diz Murilo Nasper, usuário diário.
No entanto, para pessoas com deficiência visual, a ferramenta ainda apresenta barreiras.
Lays Conceição de Jesus, deficiente visual, aponta falha crítica:
“O app acessível não vai direto ao ponto. Para pesquisar uma linha, preciso passar por vários atalhos. Se quero ir ao centro, o sistema não me mostra o ônibus certo de forma direta. Isso me impede de usar com autonomia. A gente não quer um app que fale com a gente — a gente quer um app que entenda a gente. Não é só voz. É lógica. É simplicidade.”
A diretora de produtos do Cittamobi, Emanuele Cassimiro, reconhece o problema:
“Temos versão com comandos de voz e alertas sonoros, mas a experiência precisa evoluir com o feedback real dos usuários. O que Lays descreve é um problema comum em muitos apps acessíveis: eles são feitos para pessoas com deficiência, mas não com elas. Nós estamos revisando a arquitetura do menu, eliminando atalhos desnecessários, simplificando a navegação. Mas isso exige tempo, recursos e, acima de tudo, escuta. E aí é que muitas vezes falhamos: não ouvimos quem mais precisa.”
Bilhetagem eletrônica está pronta — mas não é ativada
Aracaju eliminou o pagamento em dinheiro nos ônibus, com cartões eletrônicos e leitores instalados em todos os veículos.
O sistema permite pagamento com cartão de débito ou crédito, e QR Code via celular — tecnologia já adquirida pelas empresas e homologada pela Prodata Nacional, empresa especializada em bilhetagem eletrônica para transporte público.
Mas, apesar da infraestrutura pronta, o serviço ainda não foi liberado.
“Estamos em fase final de testes. A expectativa é que o pagamento por cartão e QR Code entre em operação nos próximos meses”, afirma Raíssa Cruz.
“Mas não adianta ter o equipamento se a população não confia. A gente já teve casos de falha no sistema, e o passageiro ficou sem pagar e sem sair. Isso gera desconfiança. Por isso, não vamos ativar sem garantia de estabilidade. Queremos que, quando o sistema for lançado, ele funcione como um relógio suíço — e não como um app que trava. O usuário não quer inovação. Ele quer confiança.”
Medellín mostra que a verdadeira inovação é integrar e incluir
Enquanto Aracaju avança em partes, Medellín, na Colômbia, unificou seu sistema.
Lá, ônibus, metrô, teleféricos e bicicletas funcionam com um único cartão e um único app, conectados a um centro de controle — o CITRA — que monitora 1.300 cruzamentos em tempo real, ajusta semáforos e prevê falhas.
“Não basta ter tecnologia. É preciso conectar sistemas, abrir dados e envolver a população”, diz Diego Vélez, porta-voz da Agência de Cooperação de Medellín.
“Em Medellín, o CITRA não é só um centro de controle. É um espaço aberto. Cidadãos, universidades e empresas acessam os dados de trânsito, criam apps alternativos, denunciam falhas, sugerem rotas. Nós não governamos a mobilidade. Nós a compartilhamos. E isso fez a diferença. O passageiro não é um cliente. Ele é um parceiro. E quando você trata as pessoas assim, elas não invadem a faixa exclusiva. Elas a defendem. Porque é delas também.”
O desafio não é ter tecnologia — é garantir que ela sirva a todos
Aracaju tem condições de ser referência nacional.
Tem corredores exclusivos que reduzem o tempo de viagem em até 20 minutos.
Tem frota elétrica, semáforos inteligentes e gestores que conhecem os modelos de sucesso.
Mas, como destacou Raíssa Cruz, “precisamos passar da fase de planejamento para a de execução”.
A lição de Medellín não é sobre equipamentos.
É sobre priorizar o coletivo e fazer a tecnologia servir à população, não apenas à imagem da cidade.
Quem não tem smartphone, quem mora em bairros sem sinal, quem não enxerga e ainda não sente essa transformação.
E enquanto isso não mudar, a modernização será apenas um discurso e não um direito.