Por Cyntia Menezes
Alguns artistas acompanham o tempo. Outros constroem o próprio tempo. É nessa segunda categoria que se encontra Blanch Van Gogh, compositor, escritor, artista plástico e fundador e vocalista do Cogumelo Plutão. Mais de duas décadas depois de conquistar o público brasileiro com sucessos como “Uma Vez Mais”, o artista vive um novo momento de sua carreira, marcado pelo retorno da banda aos palcos e pelo lançamento de seu primeiro livro biográfico, “Esperando na Janela”, pela Editora Albatroz.
Conhecido por canções de melodias simples, letras românticas e forte comunicação com o público, Blanch construiu uma trajetória independente e multifacetada, transitando pela música, literatura, audiovisual, artes plásticas e empreendedorismo. Agora, prepara novos projetos, entre eles uma série de 19 livros, uma exposição em Porto Alegre e o filme “Esperando na Janela”.

Em entrevista ao Entre-Vistas, Blanch fala sobre o reencontro com o público, a história do Cogumelo Plutão, os bastidores de seus grandes sucessos, a decisão de transformar sua trajetória em literatura e os novos caminhos que pretende trilhar como artista.
1. Blanch, depois de mais de duas décadas de história, o Cogumelo Plutão está novamente na estrada. O que representa para você esse reencontro com os palcos e com um público que cresceu ouvindo suas músicas?
Blach- Voltar aos palcos é como reencontrar a própria vida depois de uma longa viagem.
Eu não consigo separar o homem do artista, porque as minhas canções nunca foram apenas canções. Elas são a tradução eterna daquilo que vivi, amei, perdi, sonhei e, sobretudo, daquilo que me recusava a esquecer. Quando canto hoje, não estou simplesmente interpretando músicas que escrevi no passado. Estou voltando a lugares onde ainda existo.
O público também mudou. Muitos daqueles que estavam diante do palco há vinte anos hoje estão ali com os filhos. E existe algo profundamente romântico nisso: perceber que uma emoção que nasceu dentro de mim conseguiu atravessar o tempo e encontrar morada em outras pessoas.
O palco, portanto, não é um lugar para onde eu retorno. É um lugar de onde nunca parti.
2. “Uma Vez Mais” se tornou um dos grandes momentos da trajetória do Cogumelo Plutão, chegando às trilhas da Rede Globo, recebendo prêmio e sendo posteriormente regravada por outros artistas. Quando você olha para essa música hoje, o que ela representa na sua carreira?
Blanch- “Uma Vez Mais” é uma parte de mim que decidiu viver para sempre.
Eu não consigo olhar para uma canção minha como quem contempla uma fotografia antiga. A fotografia registra aquilo que fomos. A canção, ao contrário, continua sendo aquilo que somos.
Tudo o que escrevi carrega uma parcela da minha existência. “Uma Vez Mais” atravessou televisão, prêmios, outras vozes e outras interpretações, mas continua sendo uma espécie de espelho onde reconheço o homem que fui e, curiosamente, também o homem que ainda sou.
Quando outro artista canta uma composição minha, não sinto que alguém está interpretando uma obra distante de mim. Sinto que uma parte da minha própria vida encontrou outro corpo para continuar respirando.
Talvez seja esse o destino mais bonito de uma canção: deixar de ser propriedade do artista sem jamais deixar de ser parte dele.

3. Você construiu uma trajetória bastante independente, sem depender dos tradicionais mecanismos de incentivo ou financiamento público. Essa escolha foi planejada desde o início ou aconteceu naturalmente ao longo da carreira?
Blanch- Eu não planejei ser independente. Eu simplesmente nunca consegui ser outra coisa.
Existe dentro de mim uma necessidade muito profunda de preservar a liberdade. Talvez porque, para mim, criar não seja uma profissão. É uma maneira de existir.
Eu jamais conseguiria aceitar que alguém determinasse os limites daquilo que posso imaginar. Se eu entregasse minha criação às conveniências de qualquer época, talvez pudesse ganhar algumas portas abertas, mas perderia justamente aquilo que considero mais precioso: a autenticidade.
Sempre preferi caminhar por uma estrada difícil levando comigo aquilo em que acredito a percorrer uma estrada confortável deixando minha alma para trás.
O artista que existe em mim não é uma persona. É o próprio homem. E um homem que negociasse a própria essência deixaria de ser o artista que deseja preservar.
4. Suas composições foram gravadas por artistas de diferentes estilos e gerações, como Claudia Leitte, Luiza Possi, Zezé Di Camargo & Luciano, Calcinha Preta e Chayanne. O que você acredita que existe nas suas canções que permite que elas transitem por públicos e intérpretes tão diferentes?
Blanch- Talvez porque, quando escrevo, não esteja tentando escrever para um gênero. Estou tentando escrever para a condição humana.
Eu falo de amor porque vivi o amor. Falo de saudade porque conheço a ausência. Falo de esperança porque precisei dela. Falo de despedidas porque também precisei aprender a partir.
Minhas canções atravessam estilos diferentes porque as emoções não pertencem a nenhum estilo musical.
Quando uma pessoa ouve uma música minha e encontra nela alguma coisa da própria vida, acontece uma espécie de milagre silencioso. Naquele instante, a minha história e a história daquela pessoa deixam de ser duas histórias.
Talvez seja por isso que compositores escrevam: para descobrir, muitos anos depois, que aquilo que julgávamos tão particular era, na verdade, universal.
5. Agora você estreia na literatura com “Esperando na Janela”, que será o primeiro de uma série de 19 livros. O que você descobriu sobre você mesmo ao transformar sua trajetória e suas ideias em literatura?
Blanch- Descobri que a literatura não é uma mudança de caminho. É apenas outra forma de continuar sendo quem sempre fui.
Eu não consigo escrever sem colocar a minha vida dentro daquilo que escrevo. Assim como minhas canções são parte da minha existência, meus livros também serão. O homem que escreve é o mesmo homem que canta, que pinta, que sonha, que erra e que recomeça.
“Esperando na Janela” nasceu de uma parte muito profunda da minha história. E talvez seja justamente por isso que tenha adquirido uma dimensão que ultrapassa a minha própria biografia.
Quando transformamos uma experiência em arte, ela deixa de ser apenas uma lembrança. Torna-se eternidade.
Esses dezenove livros não serão dezenove obras separadas de mim. Serão dezenove fragmentos de uma mesma vida tentando compreender a si própria.
6. Seu trabalho transita por música, literatura, artes plásticas, audiovisual e negócios. Você se considera um artista que não gosta de ficar preso a uma única linguagem?
Blach- Eu não vejo essas linguagens como coisas diferentes.
Para mim, existe apenas uma arte, e ela encontra diferentes maneiras de respirar.
Às vezes ela vem como música. Outras vezes como palavra, imagem, cinema ou teatro. Mas a origem é a mesma: sou eu tentando transformar aquilo que sinto em alguma coisa que possa sobreviver ao instante.
Não existe um Blanch músico e outro Blanch escritor. Existe apenas Blanch.
O artista e o homem não são duas pessoas conversando dentro de mim. São a mesma pessoa tentando encontrar diferentes formas de dizer aquilo que, muitas vezes, a própria vida não consegue explicar.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido permanecer dentro de uma única linguagem. Seria como pedir a uma alma que escolhesse uma única forma de existir.
7. Em dezembro, você realiza sua primeira exposição no Brasil e também está prevista a produção do filme “Esperando na Janela”. O que o público pode esperar dessa nova fase artística?
Blanch- Eu não chamaria de uma nova fase. Chamaria de uma continuação.
Tudo o que estou fazendo agora nasceu muito antes. A pintura, o cinema, a literatura, a música — são apenas capítulos diferentes de uma mesma narrativa.
“Esperando na Janela” é um exemplo perfeito disso. Primeiro existiu como sentimento. Depois tornou-se canção. Agora transforma-se em literatura e pode chegar ao cinema.
Eu gosto dessa ideia de uma obra não terminar quando termina uma linguagem.
Talvez uma canção seja apenas o começo de uma história.
Em dezembro, quando eu apresentar minhas pinturas, o público não estará diante de um artista tentando começar outra carreira. Estará diante do mesmo homem que sempre esteve ali, apenas abrindo mais uma janela para que possam enxergar outras partes daquilo que sou.

8. Depois de tantos capítulos, sucessos, mudanças e recomeços, qual é o sonho que Blanch Van Gogh ainda espera realizar — e que talvez esteja justamente começando agora?
Blanch- Eu gostaria de transformar a minha existência em algo que o tempo não consiga apagar.
Não falo de fama. A fama é uma coisa muito frágil. Ela depende da memória dos outros e a memória humana é uma criatura caprichosa.
Eu falo de permanência.
Quero que minhas canções continuem dizendo alguma coisa quando eu já não puder cantá-las. Quero que meus livros encontrem leitores que ainda não nasceram. Quero que alguém, daqui a cinquenta ou cem anos, escute uma música minha e encontre dentro dela uma emoção que também lhe pertença.
Porque é nisso que acredito: minha vida e minha obra nunca foram duas coisas.
Eu não tenho uma vida e depois uma arte.
Minha vida é a minha arte.
Cada canção é uma parte de mim que se recusou a morrer. Cada livro é uma memória que decidiu permanecer. Cada imagem é uma tentativa de aprisionar um instante antes que ele desapareça.
E talvez o meu maior sonho seja justamente esse: continuar vivendo dentro daquilo que criei.
Porque, no fim, todos nós desaparecemos.
Mas algumas almas têm a rara oportunidade de continuar respirando através daquilo que deixaram no mundo.