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Carlos Magalhães e a transformação digital do rádio sergipano

Por Barroso Guimarães

A capacidade de enxergar oportunidades onde muitos veem obstáculos acompanha a trajetória do radialista Carlos Magalhães há décadas. Aos 88 anos, ele continua investindo em tecnologia, formando profissionais e acompanhando as transformações da comunicação. Sua história se confunde com a evolução do rádio esportivo sergipano e demonstra como inovação, planejamento e disposição para assumir riscos podem garantir longevidade em um mercado cada vez mais competitivo.

Mais do que acompanhar as mudanças tecnológicas, Carlos Magalhães fez delas uma estratégia de trabalho. Desde os primeiros anos no rádio, compreendeu que a qualidade da transmissão dependia da combinação entre profissionais qualificados e equipamentos modernos. Para ele, quem investia em tecnologia e oferecia o melhor produto ao público tinha mais condições de conquistar credibilidade e audiência.

Foto: Igor Matias

Uma transmissão que entrou para a história

Em 1969, durante a inauguração do Estádio Governador Lourival Baptista, o Batistão, Sergipe ainda não possuía estrutura da Embratel para realizar transmissões nacionais. O desafio parecia grande, mas não impediu que a cerimônia fosse acompanhada por ouvintes de diversas regiões do país.

À frente da operação, Carlos Magalhães coordenou a montagem de uma linha telefônica improvisada que permitiu transmitir o evento para todo o Brasil.

“Na época não tinha Embratel em Sergipe. Nós conseguimos montar uma linha telefônica e transmitimos para o Brasil inteiro”, relembra.

O episódio marcou o início de uma trajetória construída sobre criatividade, ousadia e capacidade de encontrar soluções onde aparentemente elas não existiam.

Tecnologia como diferencial

Muito antes da internet, das transmissões digitais e das redes sociais, Carlos Magalhães já entendia que tecnologia era um diferencial competitivo.
Enquanto muitas equipes trabalhavam com equipamentos básicos, ele buscava recursos que elevassem a qualidade das transmissões.

Microfones sem fio, sistemas de áudio mais modernos e equipamentos de melhor desempenho passaram a integrar a estrutura de sua equipe em um período em que tais recursos eram raros no rádio brasileiro.

Sua filosofia era simples: para oferecer a melhor cobertura esportiva era necessário contar com os melhores profissionais e fornecer a eles as melhores condições de trabalho.

Essa visão ajudou a consolidar sua equipe entre as mais estruturadas do rádio esportivo sergipano.
Ao longo dos anos, a busca constante por inovação tecnológica tornou-se uma marca registrada de sua atuação. O investimento em equipamentos nunca foi encarado como despesa, mas como ferramenta para ampliar audiência, fortalecer a credibilidade e melhorar a experiência do ouvinte.

O modelo que garantiu a sobrevivência

Com as transformações ocorridas no mercado da comunicação, muitas emissoras reduziram investimentos nas equipes esportivas. Diante desse cenário, Carlos Magalhães optou por construir um modelo próprio de atuação.
A equipe passou a operar por meio do arrendamento de horários nas emissoras.

Funcionando de forma independente, contratava profissionais, comercializava publicidade e administrava os recursos necessários para manter as transmissões esportivas.

Parte da receita era reinvestida na compra de equipamentos, melhorias técnicas e expansão da estrutura.

O contador Luiz Santana acompanhou esse processo e destaca a disciplina financeira necessária para manter a operação.

“Ele tinha primeiro a obrigação com a emissora. O custo maior era justamente a locação do horário. Depois vinha a folha de pagamento da equipe. Existiam despesas fixas, enquanto a receita dependia do mercado publicitário. Era necessário muito controle para manter a operação funcionando”, explica.

A estratégia permitiu não apenas a continuidade das transmissões, mas também a manutenção dos investimentos em tecnologia, uma das prioridades de Magalhães.

Inovar para reduzir custos

A disposição para encontrar soluções inovadoras voltou a ficar evidente durante a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Enquanto muitas emissoras precisavam realizar investimentos elevados para enviar equipes ao exterior, Magalhães apostou em uma alternativa tecnológica que ainda era pouco utilizada no rádio esportivo: a transmissão remota por meio do Skype.

Com uma estrutura montada em Aracaju, a equipe realizou toda a cobertura da competição utilizando o sistema off-tube.

“Você sabe quanto nós gastamos em toda a cobertura da Copa da África do Sul? Apenas dois mil reais. Fizemos toda a Copa montando um estúdio em Aracaju e realizando tudo off-tube com Skype”, conta.

A iniciativa demonstrou que a inovação nem sempre está associada a grandes investimentos, mas à capacidade de utilizar a tecnologia disponível de forma estratégica.

Para o ex-diretor de rádio Messias Carvalho, essa sempre foi uma das principais características do comunicador.
“É muito difícil, muito sacrificante. Comercialmente, muitas vezes parece inviável. É preciso determinação, ousadia e coragem. Não eram poucas as pessoas que diziam que ele era louco por entrar em determinadas empreitadas. Mas ele acreditava e fazia acontecer”, afirma.

Compromisso com o futebol sergipano

Ao longo de décadas, Carlos Magalhães se tornou uma das vozes mais presentes na cobertura do futebol sergipano.

Sua dedicação ajudou a ampliar a visibilidade dos clubes locais e garantiu que inúmeras partidas fossem acompanhadas por torcedores em diferentes regiões do país.

Foto: Barroso Guimarães

O presidente da Federação Sergipana de Futebol, Milton Dantas, destaca a importância desse trabalho.

“Mesmo com mais de 80 anos, ele continua atuando em prol do futebol sergipano, transmitindo jogos, inovando e acompanhando as transformações tecnológicas. Isso demonstra compromisso e paixão pelo esporte”, afirma.

Além das transmissões, sua atuação contribuiu para fortalecer a identidade do futebol sergipano e ampliar sua presença nos meios de comunicação.
Da rádio tradicional ao universo digital

A chegada das plataformas digitais não alterou a filosofia que sempre orientou sua carreira. Pelo contrário. A mesma visão que o levou a investir em equipamentos modernos décadas atrás passou a direcionar sua atuação na internet.

Há mais de dois anos, Carlos Magalhães mantém uma rádio web em funcionamento contínuo, alcançando ouvintes dentro e fora de Sergipe.

Em uma transmissão do Campeonato Sergipano entre Sergipe e Atlético Gloriense, a audiência ultrapassou 17 mil acessos, reunindo torcedores residentes em diversos estados brasileiros e até no exterior.

Atualmente, ele investe na modernização do estúdio da TV web, com aquisição de equipamentos de última geração e desenvolvimento de novos programas.

“A tecnologia avançou e nós acompanhamos. Investimos na rádio web e na televisão web porque entendemos que a empresa precisa evoluir para continuar existindo”, afirma.

A estratégia segue a mesma lógica adotada ao longo de toda a sua carreira: identificar tendências, investir antes da maioria e utilizar a tecnologia para ampliar o alcance da comunicação.

Formando gerações de profissionais

O legado de Carlos Magalhães não está apenas nos equipamentos ou nas transmissões realizadas. Também está nas pessoas que ajudou a formar.

Ao longo de mais de quatro décadas, cerca de 150 profissionais passaram pela estrutura criada por ele. Destes, aproximadamente 100 foram formados diretamente sob sua orientação.
Entre eles está o narrador Raimundo Macedo.

“Ele sempre pautou sua atuação pelo respeito, pela seriedade com o rádio e, principalmente, pelo compromisso com o ouvinte”, destaca.

A renovação também ocorre com a participação de jovens profissionais.

Aos 27 anos, Alisson Tavares integra a equipe responsável pelas transmissões digitais e pela operação técnica da rádio web.

“Hoje eu consigo operar equipamentos, montar estruturas para transmissões externas e trabalhar na web rádio. O mais interessante é que ele quer entender tudo. Quer saber como funciona o YouTube, como funciona a rádio web, como funcionam as novas plataformas. Ele conseguiu se adaptar e continua aprendendo todos os dias”, relata.

Inovação não tem idade

Para a professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe, Tatiana Aneas, a trajetória do radialista comprova que a inovação está muito mais relacionada à postura profissional do que à idade.

“Inovação é muito mais uma postura. É uma busca constante por melhorias, por soluções e por novas oportunidades. Tem muito mais relação com visão estratégica do que com idade”, avalia.

O gerente do Sebrae em Aracaju, Aurélio Viana, também destaca a capacidade de adaptação demonstrada pelo comunicador.

“Quando ocorreu uma crise, ele conseguiu enxergar uma oportunidade de negócio. Independentemente da idade, qualquer pessoa pode empreender quando identifica oportunidades e decide colocá-las em prática”, afirma.

Alexandre Guimarães: Magalhães é a referência do rádio sergipano. Foto: Maria Odília

Um legado que ultrapassa o rádio

A influência de Carlos Magalhães também é reconhecida por profissionais que acompanharam sua trajetória de perto.

Para Alexandre Guimarães, o trabalho desenvolvido ao longo das décadas ajudou a fortalecer não apenas o rádio esportivo, mas também o próprio futebol sergipano.

“A referência em Sergipe foi Carlos Magalhães. A disciplina dele, a dedicação para transmitir todos os jogos e acompanhar os clubes sergipanos sem medir esforços ajudaram a valorizar o nosso futebol. Ele oferecia as condições e incentivava cada profissional a buscar qualificação”, afirma.

Ao completar 88 anos, Carlos Magalhães continua demonstrando a mesma inquietação que marcou sua carreira desde os primeiros desafios enfrentados no rádio.

Da linha telefônica improvisada na inauguração do Batistão aos investimentos atuais em rádio web, TV digital e novas plataformas de comunicação, sua trajetória foi construída lado a lado com a tecnologia. Sempre acreditou que os melhores profissionais precisavam dos melhores equipamentos e que inovação não era luxo, mas uma condição para crescer, conquistar audiência e permanecer relevante.

Mais do que acompanhar as transformações da comunicação, ele ajudou a construí-las em Sergipe. Um legado que permanece vivo nas transmissões esportivas, nas plataformas digitais e na formação de gerações de profissionais que encontraram em seu trabalho uma referência de dedicação, visão de futuro e credibilidade.

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