CASACOR Sergipe 2026 reúne tecnologia e patrimônio cultural em novos espaços

Com o tema “Mente e Coração”, mostra abre ao público nesta quinta-feira, 8 de outubro, com 34 ambientes; Hall Rio São Francisco utiliza fabricação paramétrica e referências à identidade sergipana

Quando o visitante entrar no Hall de Entrada: Rio São Francisco, provavelmente não fará a conta das 106 chapas de MDF utilizadas na construção. O que encontrará será uma composição de curvas, materiais, luz, mobiliário e referências culturais.

Guiada pelas memórias e emoções do elenco, a 6ª edição da CASACOR Sergipe abre ao público nesta quinta-feira, 8 de outubro, na Atalaia, das 16h às 22h. A mostra reúne ambientes de arquitetura, design, arte e paisagismo e propõe diferentes abordagens para temas como morar, bem-estar e relação com a natureza.

Entre os projetos apresentados está o Hall de Entrada: Rio São Francisco, concebido pelo arquiteto e designer Josef Meris, vencedor do prêmio 2025, eleito pelo publico como “ Melhor Ambiente CASACOR“, edição passada. Nessa mostra ele apresenta um  ambiente inovador que utiliza 106 lâminas de MDF, fabricação paramétrica e referências ao Rio São Francisco e à renda irlandesa de Divina Pastora para construir uma proposta que aproxima tecnologia, indústria e identidade regional.

A utilização de processos paramétricos, entretanto, não é novidade nas mostras de arquitetura. Projetos apresentados em diferentes edições da CASACOR já recorreram à modelagem computacional e à fabricação digital para desenvolver estruturas curvas, painéis e elementos arquitetônicos.

Na CASACOR Pernambuco 2018, por exemplo, a Arena Arbor, do escritório Selvagen, utilizou metodologias de design paramétrico e algoritmos computacionais. Na CASACOR São Paulo 2019, a Galeria de Óculos, de Daniela Colnaghi, apresentou uma estrutura orgânica que se estendia da parede ao teto.

Em 2024, o Ristorantino Caffè, de Dani Guardini e Adriano Stancati, utilizou os programas Rhino e Grasshopper na elaboração de um teto paramétrico formado por lâminas de MDF. Em 2025, o Podcast Ressonare, de Fabio Grile e Andresa Tostes, apresentado em Ribeirão Preto, utilizou um painel paramétrico de MDF como parte da composição do ambiente.

Tecnologia aplicada à identidade regional

É nesse contexto que o projeto sergipano estabelece sua particularidade. O diferencial não está no uso isolado da tecnologia, mas na maneira como ela é associada a referências do território.

No Hall Rio São Francisco, as estruturas curvas desenvolvidas a partir da fabricação paramétrica fazem referência ao movimento das águas e às formas da paisagem do rio. No teto, o desenho da renda irlandesa de Divina Pastora é reinterpretado para integrar os elementos vazados do ambiente.

A combinação coloca em uma mesma solução espacial recursos de fabricação contemporânea e referências relacionadas à cultura sergipana.

Para o pesquisador Dr. Yan Capua, editor-chefe da Revista de Propriedade Intelectual, Direito Contemporâneo e Constituição, o aspecto de inovação está justamente na concepção e na combinação dos elementos em uma única linguagem arquitetônica.

A proposta também dialoga com uma pesquisa que Josef Meris desenvolve em sua produção autoral. Em seu portfólio da Coleção Curvas Sergipe, o arquiteto e designer apresenta trabalhos que relacionam natureza, memória e identidade cultural, utilizando formas orgânicas e geometrias paramétricas para transformar referências das paisagens sergipanas em objetos de design.

Entre as peças está a Poltrona Rio São Francisco, inspirada nas curvas do rio, além de trabalhos relacionados aos Cânions de Canindé, às origens do nome Sergipe e à paisagem do sertão.

No Hall da CASACOR, essa pesquisa passa da escala do mobiliário para a arquitetura.

Da matéria-prima ao espaço

Para construir o ambiente, foram utilizadas 106 lâminas de MDF Flora, nos padrões Carvalho Amanhecer e Taquari Zênite. Considerando o valor informado de R$ 475 por lâmina, o material representa aproximadamente R$ 50,3 mil, sem incluir projeto, engenharia, fabricação, marcenaria, acabamento, montagem, instalações, automação, iluminação e decoração.

As lâminas são transformadas em estruturas curvas que percorrem as paredes e aproximam elementos que tradicionalmente seriam tratados separadamente, como arquitetura, mobiliário e objetos escultóricos.

O processo começa na ideação do arquiteto, que formata o desenho digital e passa pela racionalização das formas para fabricação e montagem. A partir daí, entram em cena marcenaria, engenharia e diferentes profissionais responsáveis por transformar o modelo digital em componentes físicos.

O percurso evidencia uma característica da economia criativa: a matéria-prima é apenas o ponto de partida. O valor do produto final resulta também do conhecimento, do design, da tecnologia, da autoria e do trabalho especializado incorporados ao processo.

Quando o artesanato entra na arquitetura

A referência à renda irlandesa acrescenta outra dimensão ao ambiente.

Enquanto a fabricação paramétrica utiliza recursos digitais e industriais para produzir as formas arquitetônicas, o desenho da renda remete a uma tradição artesanal associada a Divina Pastora e à transmissão de conhecimentos entre gerações.

A proposta não substitui uma técnica pela outra. Ao contrário, utiliza uma referência artesanal dentro de uma solução arquitetônica contemporânea.

Essa aproximação permite que o ambiente reúna diferentes formas de conhecimento: o digital, o industrial, o artesanal e o territorial.

A renda, nesse caso, deixa de aparecer apenas como objeto decorativo e passa a funcionar como referência gráfica incorporada à arquitetura.

Uma pesquisa que sai do objeto e ganha escala

A relação entre paisagem e design já aparece na Coleção Curvas Sergipe. O portfólio apresenta a natureza, os rios e as memórias do estado como pontos de partida para a criação, propondo que a paisagem possa ser transformada em linguagem de design.

O conceito é sintetizado pelo próprio Josef Meris: “Acredito que o design tem a capacidade de eternizar paisagens. Quando uma forma carrega memória, cultura e identidade, ela deixa de ser apenas um objeto e passa a contar a história de um lugar.”

No Hall Rio São Francisco, a mesma pesquisa assume outra escala. O que anteriormente aparecia em uma poltrona, mesa ou luminária passa a organizar parte da experiência espacial do visitante.

Uma cadeia de produção por trás do ambiente

O resultado final reúne curvas, materiais, iluminação, mobiliário, arte e tecnologia. Para chegar a esse resultado, entretanto, o projeto mobiliza uma cadeia de fornecedores e profissionais de diferentes áreas.

Segundo Josef Meris, participam da execução Flora, CINCO W, J Nunes, NovoTok, Coral, Deca, Galeria de Arte Mario Britto, Ces Arts, Smart Home, Casa Oliveira Home Decor, 4 Estações e Olfactive.

A cadeia envolve atividades como fabricação, marcenaria, engenharia, pintura, elétrica, montagem, iluminação, automação, decoração e arte.

Nesse contexto, as 106 lâminas de MDF representam apenas uma parte do processo. Entre o material industrializado e o ambiente apresentado ao público estão o projeto, a tecnologia, a fabricação, o trabalho especializado e as referências culturais que orientam a criação.

Tecnologia, território e novos modos de morar

A presença do Hall de Entrada: Rio São Francisco na CASACOR Sergipe 2026 dialoga com a própria proposta da mostra deste ano. Ao reunir arquitetura, design, arte e paisagismo sob o tema “Mente e Coração”, a exposição coloca em discussão não apenas a configuração dos espaços, mas também as relações entre experiência, natureza e identidade.

No projeto de Meris, o Rio São Francisco orienta a linguagem formal; a renda irlandesa acrescenta uma referência cultural; a fabricação digital transforma o desenho em componentes construtivos; e uma rede de profissionais materializa a proposta.

O resultado é uma arquitetura em que a tecnologia não aparece apenas como ferramenta para criar formas, mas como meio para transformar referências de um lugar em experiência espacial.

É nessa passagem, da paisagem para o desenho, do desenho para a fabricação e da fabricação para a arquitetura, que está a principal particularidade do Hall Rio São Francisco dentro da discussão contemporânea sobre design e identidade regional.

Da assessoria – Fotografia: Fillipe Araújo

Fonte: Faxaju

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