A capital do menor estado do Brasil completa 171 anos de história nesta terça-feira, 17 de março. Uma cidade feita por gente guerreira, empática e que não se furta do papel de cidadão. Entre os mais de 602 mil habitantes, catalogados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estão os “guardiões de Aracaju”: Lúcia de Fátima Oliveira, professora aposentada; Maria Gilenilde Barbosa, cuidadora de idosos; e José Airton, taxista.
O trio recebeu treinamentos da Defesa Civil de Aracaju – órgão vinculado à Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seminfra) – para integrar nos Núcleos de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs) e se tornar “olhos e ouvidos” nos bairros.
Para a coodenadora-geral da Defesa Civil, Valéria Bispo, os guardiões exercem um papel fundamental na relação entre a instituição e a comunidade. “Muitas situações chegam aqui na Defesa Civil por intermédio dos guardiões. Eles aprenderam técnicas de primeiros socorros, percepção de risco, ações preventivas, combate a incêndios, atuação e comunicação em emergências. Os voluntários são capacitados pela Defesa Civil para atuar nos eixos da prevenção, mitigação, preparação para emergências e reconstrução”, explicou a coordenadora-geral da Defesa Civil de Aracaju, Valéria Bispo.
O foco dos Nupdecs é promover a conscientização popular e fortalecer a cultura preventiva na cidade. Os primeiros foram criados em Aracaju no ano de 2018 e, atualmente, existem oito núcleos ativos com cerca de 80 voluntários. São moradores de áreas com histórico de risco geológico, ambiental, físico e habitacional.
“Realizamos reuniões constantes para ouvir as demandas da comunidade e encontrar soluções para a localidade. Além da escuta ativa, os voluntários enviam vídeos, fotografias e até áudios com relatos dos problemas”, pontuou a assistente social da Defesa Civil, Sheila Rolemberg.
Com o apoio desses grupos, as políticas públicas municipais conseguem ser aplicadas de forma assertiva, diminuindo os impactos de eventos climáticos ou de ações antropogênicas. É através do conhecimento que esses “guardiões” contribuem para o desenvolvimento de uma cidade melhor.
“Nós estamos integrados a um grupo de pessoas, de cada ponto da comunidade, junto com a equipe da Defesa Civil, que ouve os nossos anseios, as nossas dificuldades e aquilo que temos de reivindicação. Colocamos à mesa e depois o trabalho é realizado, como aconteceu com a obra de contenção no Bairro América”, disse o voluntário do Nupedc do Bairro América, José Airton.
Este é um trabalho voluntário em prol da comunidade aberto a qualquer pessoa, desde que tenha disponibilidade para as reuniões e compromisso para identificar as necessidades de cada região. Nas áreas que ainda não existem os Nupdecs, a Defesa Civil faz uma reunião de capacitação com os interessados. Dúvidas podem ser tiradas pelo e-mail [email protected] ou através do número (79) 9 8103-2852.
Dona Lúcia, uma voz do Porto Dantas
A pedagoga aposentada Lúcia de Oliveira, 68 anos, moradora do bairro Porto Dantas, vive a poucos quilômetros da Área de Proteção Ambiental Morro do Urubu (APA), na Zona Norte da capital. Os 213 hectares de área verde estão entre os 7% que restaram da Mata Atlântica original em Sergipe.
Quando chegou à região, há 30 anos, eram poucos moradores — cenário bem diferente dos atuais 18.742 habitantes (Fonte: IBGE/2022) em uma área de 6,01 km². Ela manteve uma escola particular a preços populares, que funcionou por dois anos, e sua influência a tornou uma liderança na comunidade.
“Hoje, quase não existem barracos; são mais casas de alvenaria. A comunidade foi melhorando com os esforços das lideranças e dos amigos, em atuação conjunta com a prefeitura. Aqui era uma fazenda com muita vegetação, que foi desativada”, lembra Lúcia.
A forte influência e a luta social da pedagoga a levaram a mais um serviço voluntário, desta vez no Núcleo de Proteção e Defesa Civil – Porto Dantas, onde ocupa o cargo de coordenadora.
“Sei que estou lutando por melhorias para a minha comunidade. Várias situações já foram resolvidas através do núcleo, como a drenagem do Porto Dantas, a limpeza de manguezal e as orientações passadas para que a população contribua para a harmonia do ambiente em que vivemos”, enumerou a coordenadora.
Maria Gilenilde, uma visionária
“A minha história na Soledade é maravilhosa, começa em 1974. Quando cheguei aqui só tinha piçarra e mato. Havia apenas uma rua; depois construíram a igreja. A comunidade foi se desenvolvendo em meio aos viveiros de camarão e as salinas. Só depois foram aparecendo as casas, colégios, creches”, contou a coordenadora do Nupedc Soledade, Gilenilde Barbosa.
No bairro Soledade, também na Zona Norte, vivem 13.931 moradores em uma área de 2,35 km² (Fonte: IBGE/2022). Dona Gilenilde possui uma excelente relação com o lugar onde vive, mas precisou se entregar. A mulher que interrompeu os estudos na 7ª série do ensino fundamental, para ser babá e ajudar a família, já foi presidente da associação de moradores e atualmente preside o Conselho Comunitário. O Nupedc surgiu há oito anos.
“Fui convidada para uma reunião e adorei. O que mais gostei? Foi aprender a montar as barracas de emergência, usadas em caso de catástrofes. Como coordenadora, observo as áreas de risco e repasso tudo para a Defesa Civil. Aqui já fizeram limpeza e desobstrução de canais. É uma ação que depende de toda a comunidade”, afirmou.
Dona Gil, como é conhecida, gosta mesmo de vestir o colete da Defesa Civil de Aracaju e percorrer as ruas do bairro cuidando da vizinhança. “Eu me sinto construindo uma cidade cada vez melhor. É muito orgulho, mesmo. Onde a gente chega, representa esse órgão. Eu me sinto importante”, conta com um sorriso no rosto.
Ela sabe que, ao lado da professora Lúcia de Fátima Oliveira e do taxista José Airton, está contribuindo para tornar a cidade mais acolhedora e com motivos de sobra para celebrar os 171 anos da capital sergipana.
Foto: Ascom/Defesa Civil