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Crime, silêncio e corporativismo: o caso que abala a imagem das corporações militares

*Por Fábio Lemos Lopes

A morte da soldado Gisele, vítima de feminicídio supostamente praticado pelo próprio marido — um coronel da Polícia Militar paulista — expõe mais do que um crime brutal. Revela, sobretudo, um silêncio institucional que causa estranheza e inquietação.

Tradicionalmente, quando um policial militar morre, a corporação reage: há homenagens, manifestações públicas de solidariedade, rituais de despedida e notas oficiais. Desta vez, no entanto, o que se viu foi o oposto. Não houve mobilização visível da tropa, tampouco manifestações expressivas de associações ou projetos voltados à proteção de mulheres, como o “Rondas Maria da Penha”.

Feminicídio de soldado expõe silêncio e contradições dentro da PM

O contraste se torna ainda mais perturbador diante de informações de que o coronel, preso um mês após o crime e apontado pela perícia como responsável por fraudar o local, teria recebido apoio informal de colegas. Há relatos de policiais que estiveram na cena do crime para realizar limpeza e, posteriormente, de um gesto de acolhimento no momento de sua chegada ao presídio.

Esses elementos levantam uma questão inevitável: o que acontece, de fato, nos bastidores das corporações militares? O Estado brasileiro parece distante da realidade intramuros dos quartéis, onde práticas e valores nem sempre dialogam com os princípios constitucionais.

As próprias declarações atribuídas ao acusado ajudam a compreender esse ambiente simbólico: referências a si mesmo como “rei”, “macho alfa” e “provedor”, enquanto à mulher caberia o papel de “submissa”. Trata-se de uma lógica que remete a uma cultura de poder e dominação ainda presente em determinados espaços institucionais.

Nesse contexto, surge uma contradição evidente: como mulheres policiais militares podem atuar no combate ao feminicídio se, em muitos casos, também enfrentam estruturas internas marcadas por desigualdade e desrespeito?

Relatos recorrentes apontam para problemas estruturais e institucionais, como a ausência de condições adequadas às necessidades fisiológicas femininas durante o serviço, a desconsideração dos ciclos menstruais, o uso de equipamentos de proteção incompatíveis com a ergonomia feminina e, ainda, a resistência de parte dos policiais homens em dividir guarnições com mulheres.

Não se trata de um caso isolado. São muitas “Giseles” que permanecem invisíveis, silenciadas dentro de um sistema que, em tese, deveria protegê-las. Esse cenário levanta dúvidas legítimas sobre o compromisso das instituições com princípios fundamentais como dignidade da pessoa humana, igualdade de gênero e valorização do servidor público.

Como já se disse, “a posição hierárquica provoca, em alguns indivíduos, a volúpia da autoridade; e, quanto menores forem suas qualidades morais, maior será sua arrogância e seu desejo de mando”. A reflexão é inevitável.

Mais do que uma homenagem, a memória da soldado Gisele exige posicionamento, revisão de práticas e coragem institucional para enfrentar problemas que não podem mais ser ignorados.

Por Fábio Lemos Lopes*
PM da reserva remunerada, advogado e especialista em Violência, Criminalidade e Políticas Públicas pela UFS.

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