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Da Voz do Estado Novo à Trincheira da Sergipanidade: A Saga da Comunicação Pública em Sergipe

Valter Albano

No dia 30 de junho de 1939, o presidente Getúlio Vargas assinava o Decreto-lei nº 4.328. O ato burocrático, outorgado na capital federal, trazia em si a permissão para a instalação da primeira estação de radiodifusão em Sergipe. À época, poucos poderiam prever que aquele instrumento de centralização política, propaganda estatal e poder iria, ao longo das décadas, arquitetarem a própria identidade cultural do povo sergipano.

Quase nove décadas depois, a antiga “Voz do Estado” consolidou-se como o Sistema Aperipê de Comunicação, um dos maiores patrimônios de fomento à Educação e à Cultura do Estado. Compreender essa trajetória é mergulhar em uma metamorfose institucional rara: como uma emissora nascida sob o manto do controle autoritário transformou-se no maior canal de expressão da liberdade e da diversidade local?

A comunicação pública sergipana brotou em um terreno de forte centralização política. O Brasil vivia a égide do Estado Novo Varguista e, em solo local, o governo do interventor federal Eronildes de Carvalho alinhava-se estritamente às diretrizes do Rio de Janeiro.

A concepção de uma emissora sofreria fatalmente a influência direta do temido Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O órgão de censura e propaganda oficial do regime era idealizado e comandado por outro sergipano, natural de Riachão do Dantas, Lourival Fontes. Através do correspondente estadual do órgão, o DEIP, a rádio nasceu com uma missão clara: ecoar a voz oficial, unificar o discurso cívico e manter as rédeas da informação firmes nas mãos do Estado.

Com o fim da ditadura de Vargas e o subsequente processo de redemocratização do país, o ar que se respirava na emissora mudou drasticamente. As décadas de 1940, 1950 e 1960 consolidaram a chamada “Era de Ouro” do rádio brasileiro, e Sergipe não ficou atrás.

A rádio abriu suas portas para a efervescência social: programas de auditório cheios de aplausos e emoção, rádio teatro que mexia com o imaginário popular, orquestras ao vivo ocupando os estúdios, transmissões esportivas vibrantes que uniam a capital ao interior.

Os microfones, antes restritos às autoridades, passaram a ser disputados por músicos locais, intelectuais e pelo próprio cidadão de Aracaju. O grande desafio desse período foi comercial e operacional: transitar para um modelo mais dinâmico e competitivo, sem jamais perder a essência de utilidade pública e a proximidade afetiva com o ouvinte.

Até o início dos anos 1970, a rádio funcionava muito atrelada à estrutura administrativa direta do Estado, limitando sua agilidade. A grande virada institucional ocorreu em 11 de dezembro de 1972. Sob a gestão do então governador Paulo Barreto de Menezes, foi sancionada a Lei nº 1.759, criando a Fundação Aperipê (Fundap).

Esta mudança jurídica foi fundamental. Ao se tornar uma fundação, a Aperipê ganhou autonomia administrativa e fôlego para planejar seu futuro como emissora pública de fato, e não de governo. A partir dali, o complexo de comunicação pública expandiu-se de forma expressiva.

Hoje, sob a gestão da FunSecom, as emissoras Aperipê enfrentam um cenário de comunicação radicalmente diferente daquele desenhado em 1939. Os desafios contemporâneos são múltiplos e complexos. O enfraquecimento das tradicionais frequências AM exigiu a migração técnica para o espectro de FM, ao mesmo tempo em que as emissoras se adaptam às pressões das plataformas de streaming e aplicativos digitais. Levar a herança da saudosa “Difusora” para o ecossistema digital sem perder o seu público tradicional é uma tarefa delicada.

Por fim, como se não bastasse, há o desafio estético, de se adaptar a uma era dominada por plataformas digitais e algoritmos que homogeneízam o consumo musical. O papel de uma rádio educativa é nadar contra a corrente. As emissoras Aperipê atuam como uma barreira de resistência, garantindo que ritmos e manifestações tradicionais como o forró de raiz, o cacumbi, o reisado, a chegança, o samba de roda e as produções contemporâneas dos artistas sergipanos continuem ecoando diariamente.

Ao olhar para trás, percebe-se que a história que se iniciou com a antiga Rádio Difusora (agora Sistema Aperipê de Comunicação), confunde-se com a própria história moderna de Sergipe. De porta-voz de um regime centralizador a trincheira de defesa da diversidade cultural, as emissoras provam, ao longo do tempo, que a comunicação pública não se define por quem a financia, mas sim por quem ela serve.

O maior desafio do Sistema Aperipê para o futuro continuará sendo o de se manter fiel ao seu propósito inicial de integração: educar, seja através das ondas sonoras ou pela imagem, garantindo que o cidadão, de Neópolis a Canindé de São Francisco, continue se reconhecendo e, sobretudo, se orgulhando ao ligar o rádio ou a TV e ouvir o histórico prefixo: Aperipê — Educação, Cultura e Sergipanidade!

Jornalista e Historiador, desenvolve pesquisas sobre Música, Lendas, Mitos, Cultura Popular, Imaginário Coletivo e Conflitos Sociais Rurais com tônica para o Cangaço, ao qual dedica especial interesse e tem domínio.

 

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