Mais do que o sustento material, o maior legado que um pai pode deixar é o afeto. O Correio de Sergipe e o Portal AJN1 trazem neste fim de semana uma entrevista necessária com o doutor em Psicologia Israel Jairo sobre os desafios da paternidade emocionalmente presente. A entrevista aborda como superar a cultura da rigidez, driblar o excesso de telas e transformar a rotina corrida em tempo de qualidade para construir memórias e laços inquebrantáveis com os filhos. Ele faz uma análise de como a como a quebra de velhos paradigmas e a gestão do tempo são essenciais para construir vínculos afetivos profundos e duradouros neste Dia dos Pais. Leia a íntegra!
Correio de Sergipe/AJN1 – O que significa, na prática, ser um pai emocionalmente presente?
Israel Jairo – Presença emocional é uns dos maiores desafios para nossos dias. E na paternidade ela significa uma quebra de paradigma.
Presença emocional significa um envolvimento mais afetivo e efetivo do pai na vida do filho, visando uma aproximação e responsabilização mais intensa da figura paterna na criação dos filhos.
E isso na prática traz para a paternidade a exigência de novas habilidades no processo de criação dos filhos. E estas novas habilidades geralmente vão na direção de ampliação hábitos e papéis sociais para os pais que outrora não faziam parte do rol das responsabilidades deles no processo de criação dos filhos.
CS/AJN1 Em uma rotina corrida, como os pais podem fortalecer o vínculo com os filhos mesmo tendo pouco tempo disponível?
Israel Jairo – O tempo tem relação direta com o que entendemos que é prioridade para nós!
E a partir disso, chamo a atenção que mesmo com os atravessamentos financeiros que exigem dos pais que ofertem a maior parte de seu tempo no trabalho. E o sustento da família seja uma prioridade, precisamos entender que esta não deve ser a única responsabilidade nossa na relação familiar.
Então, dentro da nossa rotina, se priorizarmos os filhos, encontraremos um tempo para fortalecermos os vínculos. Faremos tempo para isso, ou seja, criaremos tempo. Aquilo que entendemos como importante, criamos formas para atender a importância que se tem. Entender isso, representa uma virada de chave na forma como entendemos e lidamos com nosso tempo.
Estabelecer um hábito diário com o filho. Seria uma forma de aumentar a vinculação. E necessariamente isso deve demandar muito tempo.
Se inteirar da rotina diária do filho, dos detalhes. Fazer parte do mundo do seu filho.
Na maioria das vezes, estamos cansados, e comparando com as nossas responsabilidades, os assuntos que muitas vezes os filhos apresentam, podem parecer bobo para o pai.
Contudo, se voltarmos para a compreensão do filho, aquele é o mundo dele. Aquilo que ele pode dar conta para o tempo dele. E isso é muito importante. E você estar nesta fase, se comportando como um suporte, integrado e respeitando o tempo de amadurecimento das crianças é fundamental para a criação do filho.
CS/AJN1 – Como o excesso de telas e a tecnologia têm afetado a convivência entre pais e filhos?
Israel Jairo – Essa é uma realidade para todos nós. A tecnologia tem roubado nossa vida e independência.
Cada dia mais estamos desconectados da vida humana e supervalorizando a experiência online.
Porém, isso vai na contramão de formação e fortalecimento de vinculo.
E nesse ponto, podemos voltar ao tema do que temos feito com o nosso tempo. Hoje, mesmo não sendo prioridade, damos muito do nosso tempo para estarmos online. E isso significa que deixamos de ter tempo útil para as pessoas que são mais importantes nas nossas vidas, ou seja, nossos filhos. E sabendo que a oferta de tempo é escassa. Mas desperdiçamos o tempo com coisas que não são importantes. Ou, estendemos o tempo de trabalho para a esfera pessoal, quando deveríamos ter mudado o foco do trabalho para a família. O que colabora para a experiência de menos tempo ainda. A gestão do tempo tem sido cada dia mais um desafio. Sobretudo, porque esquecemos muito de darmos tempo ao que importa e é uma responsabilidade do cuidador: Ter tempo para os filhos.
Acredito que inicialmente, precisamos estabelecer claramente o que é prioridade para nós, e a partir daí, fazermos uma gestão melhor do tempo para incluirmos de forma adequada as atividades que uma paternidade emocionalmente presente requer.
CS/AJN1 – Quais são os sinais de que uma criança ou adolescente sente falta da presença emocional do pai?
Israel Jairo – A mais clara é que, nas horas de dúvidas e dilemas que os filhos tem para resolver, é a não procura pelo pai para relatar, tirar dúvidas ou se abrir sem medo de não ser compreendido e receber apenas uma reclamação. Esse é um grande termômetro para avaliarmos nosso vínculo com nossos filhos. Eu sou apoio emocional para o meu filho?
Há reclamações de pais que relatam que os filhos só os procuram quando querem pedir dinheiro, e isso é quase que um consenso entre os pais. Porém, mais do que expertise dos filhos, este comportamento tem que ser entendido que estas crianças só buscam aquilo para o que nos colocamos disponíveis. Dizemos reiteradas vezes na estrutura familiar que nós estamos disponíveis e entendemos de sustento, mas não estamos disponíveis para ouvir eles falarem sobre o mundo deles, sobre a realidade da vida deles, dos dilemas, medos, e angustias que sentem. E muitas vezes sequer há diálogos entre pais e filhos. E ser emocionalmente presente, exige mudança na forma como entendemos a paternidade.
CS/AJN1 – Muitos homens cresceram ouvindo que não deveriam demonstrar sentimentos. Como essa cultura influencia a forma de exercer a paternidade hoje?
Israel Jairo – Essa cultura traz muito prejuízos para nós enquanto pessoas e por tabela, estes prejuízos se estendem a nossos filhos. Filhos de pais emocionalmente presentes, podem até ser pessoas que funcionem dentro do que é esperado em termos de comportamento social, mas, internamente este sujeito pode estar envolto em sofrimento, inseguranças, medos que os acompanharam desde sempre e não puderam lidar com isso da maneira mais saudável simplesmente porque nunca encontraram apoio para resolver estas demandas.
E como se aprendêssemos que se a dor faz parte da experiência humana, ser homem é aguentar calado. Mas o grande prejuízo disso é que ninguém aguanta calado sofrimento. Se não falamos sobre ele, o sofrimento se manifesta de outra forma. Mas ele estará ali. Nesse sentido, respondemos ao mundo de maneira sofrida, rígida, dura. forte. E isso é paradoxal. Somos feitos de carne e osso, contudo, somos ensinados que devemos ser rígidos e duros como uma pedra. E viver buscando atender a este imperativo social, somente nos afasta de nossa humanidade e deturpa as nossas relações enquanto ser humano. Enquanto pai que está e pretermite-se estar ligado emocionalmente ao filho.
Estar disposto a quebras estes paradigmas é também estar disposto a comprometer-se com a saúde física e mental. Significa também estar inclinado a viver a vida de maneira plena. Imagine só, você ter um filho, custear a vida material de uma outra pessoa, e você se sentir distante daquela pessoa porque o que você aprendeu que seu papel enquanto pai é de não deixar faltar nada aquela filho. Contudo, vocês são emocionalmente distantes. O que teve de ganho nessa relação? O que houve de ganho afetivo. No final dos seus dias, o que vai importar, a comida que não faltou ou os afetos que não foram experienciados?
E pensar nisso implica numa resposta de que no menino, precisamos ponderar as nossas experiências com nossos filhos. Isso é paternidade. Porque no fim das coisas, somente as experiencias de afeto que ficarão marcadas na memória de nossos filhos. Pare para pensar nas memórias boas que você tem de seu pai, as melhores lembranças que você tem estão relacionadas a comida na mesa que ele se preocupou em não deixar faltar? E veja que se alimentar é uma necessidade básica do ser humano, tal qual os afetos também são necessidades humanas. Porém, estas últimas ficam para vida!
CS/AJN1 – Neste Dia dos Pais, qual é a principal mensagem para quem deseja construir uma relação mais forte e saudável com os filhos?
Israel Jairo – Neste dia tal especial que convencionamos ressaltar o nosso papel e importância dentro da sociedade familiar, que nós pensemos no quanto nós somos importantes e potentes no sentido de prepararmos nossos filhos para a vida adulta apenas com a nossa presença emocional, comprometida e afetuosa. Que possamos lembra e tornar hábito pedirmos abraço para nossos filhos, abraçarmos, nos interessarmos sobre o mundo deles e demonstrarmos que estamos disponíveis para sermos o porto seguro deles no que concerne as emoções deles (aspecto que aprendemos que isso seria exclusividade da mulher).
Sermos mais presentes nas vidas de nossos filhos é um desafio que só constrói uma relação mais coesa e protetiva da saúde deles e da nossa também. Ser um pai emocionalmente presente traz benefícios para o pai de igual modo. Acho que precisamos cada dia mais nos comprometermos com esta necessidade que também é parte formativa da vida de nossos filhos. Pois, se não estivermos presentes na vida deles, a lacuna será preenchida por outros pessoas, meios ou coisas. Acarretando assim a nossa ausência emocional diversos prejuízos para ambos, pai e filho. Até porque, todo pai deseja que seu filho seja feliz e tenha sucesso, apenas, só não ponderamos que isso parte de nossa postura ativa no processo de formação da vida deles.
Acredito que um feliz dia dos pais deve ser sentido em sua plenitude quando se tem filhos nos quais, nós pais, podemos sentir que eles (nossos filhos) estão felizes por nós e conosco. Ligados emocionalmente como pai e filhos devem ser.
Fonte: AJN1