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Negócios que resistem ao tempo: empreendedores mantêm vivos objetos e ofícios de outras épocas

Em tempos de telas e inteligência artificial, há quem procure uma máquina de escrever justamente para fugir das distrações digitais. Em Brasília (DF), Marcelo Dias recebe jovens interessados em escrever poemas e cartas no papel e clientes mais velhos em busca de objetos que marcaram outras épocas. À frente do Scaravelho – Objetos em Cena, ele encontrou nesse interesse um mercado que atravessa gerações. “A máquina é um objeto que não te distrai. Você só vai escrevendo. E o ‘tec-tec’ tem um barulho hipnótico que as pessoas gostam também”, conta.

A história do negócio começou quase por acaso durante a pandemia. Marcelo já alugava peças antigas para cenários de filmes quando precisou consertar uma máquina de escrever. Diante do valor cobrado pelo serviço, decidiu tentar fazer a manutenção por conta própria. Conseguiu, anunciou a máquina e ela foi vendida rapidamente.

Vieram uma segunda, uma terceira e muitas outras. Desde então, calcula ter recuperado entre 500 e 600 máquinas, inclusive enviadas por clientes de outros estados. “O negócio começou a crescer. Hoje eu nem faço propaganda porque não consigo lidar com a demanda, que é muito grande. Sempre tenho uma fila de máquinas”, relata.

Pelas mãos de Marcelo já passaram peças que carregam histórias tão curiosas quanto seus mecanismos. Entre elas, um relógio solar produzido por volta de 1740 e uma rara máquina dos anos 1960 capaz de escrever partituras musicais, a Music Writer, da Smith Corona. Outra pertencia ao cineasta Vladimir Carvalho, que era seu cliente.

Após a morte do documentarista, em 2024, Marcelo doou a Olivetti Linea 98 à Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB), onde ficou disponível para os estudantes. “Ele me deu essa máquina maior de presente. Quando faleceu, decidi fazer a doação para a biblioteca da UnB, que era um local que ele frequentava muito e gostava”, lembra.

Casa Leal está na quarta geração de empreendedores | Foto: Divulgação

No Rio de Janeiro (RJ), o conhecimento passa de geração em geração. Fundada em 1872 e considerada a loja de relógios mais antiga da capital fluminense, a Casa Leal está na quarta geração e hoje tem à frente Filipe Canedo, que acumula as funções de proprietário e relojoeiro. Na bancada chegam relógios de pulso, bolso e carrilhões, mas um dos maiores desafios está justamente em encontrar profissionais capazes de cuidar dessas peças.

“No Brasil não existe escola de relojoeiros, e a profissão vem sofrendo com a falta de mão de obra. Um bom relojoeiro leva no mínimo dez anos para se formar e se especializar”, afirma. Enquanto alguns objetos praticamente desapareceram do cotidiano, outros atravessaram o tempo e ganharam novos significados. Filipe conta que os despertadores perderam espaço com o avanço da tecnologia, enquanto relógios de bolso continuam chegando à oficina, muitas vezes pelo valor afetivo.

Os relógios de bolso possuem seu charme e algumas pessoas ainda fazem as manutenções por serem joias de família. Os relógios carrilhões praticamente não são mais fabricados, com algumas raras exceções na Alemanha, mas sempre vai existir uma demanda por restauro.

Filipe Canedo, empreendedor

Se as peças pertencem a outras épocas, a gestão precisa acompanhar o presente. Na Casa Leal, ferramentas eletrônicas, equipamentos de lavagem e microscópios auxiliam os reparos, enquanto redes sociais e tráfego pago ajudam a alcançar clientes de outras cidades e estados. “A tecnologia é fundamental e de grande ajuda”, afirma Filipe. Segundo ele, a presença da loja nas plataformas digitais permite que consumidores conheçam o serviço e enviem seus relógios para restauração mesmo à distância.

Marcelo Dias também reconhece que preservar um ofício especializado não basta para sustentar e ampliar um empreendimento. Ele aponta gestão financeira, marketing e atendimento ao cliente entre os principais desafios e vê no Sebrae um parceiro para uma futura expansão do Scaravelho.

“A organização do negócio é essencial para que a gente consiga futuramente participar mais ativamente do circuito de feiras criativas da cidade e seja lembrado não só pelo inusitado, mas pelo atendimento de excelência, simpatia e praticidade”, diz.

Entre teclas, molas e engrenagens, Marcelo e Filipe mostram que negócios construídos em torno de objetos do passado também precisam olhar para o futuro. Quanto mais raros ficam determinados conhecimentos, mais valioso se torna quem sabe preservar, reparar e devolver função a peças que atravessaram gerações. E, para esses empreendedores, resistir ao tempo significa também aprender a transformar tradição em oportunidade.

Fonte: Agencia Sebrae

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