Por Valter Albano
No horizonte do semiárido brasileiro, onde o sol castiga a terra e a vegetação da caatinga se arma de espinhos, surgiu uma das expressões artísticas mais singulares e viscerais da história nacional: a indumentária do cangaceiro.
Longe de serem apenas trapos de fugitivos, as vestes de figuras como Lampião e Maria Bonita representavam uma “armadura de luxo”. Como toda realeza que se preze precisa ter uma coroa, um manto impecável e, naturalmente, súditos, havia ali uma fusão entre a necessidade de sobrevivência e, em particular, um desejo quase barroco de distinção.
A origem dessa vestimenta reside na “Civilização do Couro”. Assim como o vaqueiro nordestino, figura central da economia e cultura da região, o cangaceiro adotou a pele do gado como sua segunda pele. O couro era a única barreira capaz de proteger o corpo contra as “unhas de gato” e os “xique-xiques”.
No entanto, se o vaqueiro usava o couro cru e funcional, o cangaceiro o elevou ao status de arte. Frederico Pernambuco de Mello, a maior autoridade no tema e autor da obra seminal Estética do Cangaço, argumenta que o banditismo rural no Nordeste não buscava a camuflagem, mas sim a visibilidade. Sim, o cangaceiro queria ser visto, temido e admirado.
Em suas pesquisas, Mello faz uma afirmação que, para ouvidos menos atentos, pode parecer audaciosa: a indumentária do cangaço é tão bela, complexa e carregada de simbolismo quanto a dos samurais do Japão feudal ou a dos cavaleiros medievais europeus.
Essa comparação não é meramente visual, ela é estrutural. Se não vejamos: enquanto o samurai se vestia de seda e lacas, e o cavaleiro medieval portava o aço, o cangaceiro triunfava utilizando o couro trabalhado com pespontos de cores vibrantes, aplicações de moedas de prata, botões de ouro e simbologias místicas. Ora, observe se não era uma verdadeira “heráldica do sertão”.
Já o chapéu de couro, com sua aba quebrada e adornada com estrelas de oito pontas, a Estrela de Salomão, não era apenas um protetor solar, mas uma coroa que indicava a hierarquia, o poder e a majestade de quem o portava.
O diferencial estético do cangaço reside exatamente na profusão de detalhes. Os bornais, sacos de lona ou couro usados para carregar munição e mantimentos, eram bordados com motivos florais e geométricos que remetiam à tradição ibérica e árabe.
Essa vaidade, chamada por Mello de “escudo de prestígio”, servia para intimidar o inimigo. Um cangaceiro ricamente adornado enviava uma mensagem clara: ele era um sobrevivente, um homem que acumulara riquezas em uma terra de miséria e que possuía o “corpo fechado” por orações costuradas dentro de seus próprios cinturões de couro.
Hoje, a estética do cangaço transcende as páginas da história policial para ocupar espaços em museus e passarelas de moda. A compreensão de que o couro do sertão não é apenas um material rústico, mas a base de uma alfaiataria guerreira sofisticada, permite-nos olhar para o passado com um novo respeito.
O cangaceiro não foi apenas um personagem social ou político, ele foi um designer de sua própria identidade. Ao transformar o couro de gado em uma vestimenta de gala para a guerra, provou que, mesmo no ambiente mais hostil do mundo, a beleza é uma arma de resistência tão poderosa quanto o próprio fuzil.
Fonte:
Estrelas de Couro: a estética do Cangaço, Frederico Pernambuco de Mello, 2010, Escrituras Editora.
Lampião em Cena: criatividade na cultura visual do Cangaço, Germana Gonçalves de Araújo, 2020, Editora Códice.
Jornalista e Historiador, desenvolve pesquisas sobre Música, Cultura, Mitos, Lendas, Imaginário Coletivo e Conflitos Sociais Rurais, com tônica para o Cangaço, ao qual dedica especial interesse e tem domínio.