Um estudo publicado na revista BMC Medicine sugere que substituir 15 minutos de sono ou de comportamento sedentário, como ficar sentado assistindo à TV, por 15 minutos de movimento pode levar a uma redução de 2% no risco de desenvolver câncer. Para chegar a tal conclusão, os cientistas do University College London analisaram dados de 59 mil pessoas coletados durante oito anos e disponíveis no UK Biobank, um banco de dados britânico com informações de saúde de mais de meio milhão de voluntários.
O levantamento também identificou que o movimento contrário também traz efeitos práticos à saúde. Trocar 30 minutos de atividade física por 30 minutos de comportamento sedentário, por exemplo, fez aumentar o risco de surgimento de câncer em 8%, enquanto substituir esse mesmo período ativo por mais tempo de sono elevou o risco da doença em 7%.
Esses resultados não comprovam, por si só, uma relação de causa e efeito. Ainda assim, os dados reforçam a importância de reduzir períodos prolongados de sedentarismo e manter-se fisicamente ativo ao longo da vida. “A mensagem principal é que, para as pessoas que já levam uma vida fisicamente ativa, é muito importante manter esse nível de atividade à medida que envelhecem”, resume John Mitchell, principal autor do estudo, em comunicado.
Condução do projeto
Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram dados de um levantamento feito pelo UK Biobank em que os participantes usaram, durante sete dias consecutivos, um acelerômetro no pulso. O dispositivo, semelhante a um relógio inteligente, registra os movimentos do corpo e permite estimar sua duração e intensidade.
Com esses registros, os cientistas puderam analisar não apenas o tempo dedicado a atividades físicas, mas também quanto os voluntários dormiam e permaneciam em comportamentos sedentários. Depois, essas informações foram relacionadas aos diagnósticos de câncer registrados durante os oito anos seguintes. Ao todo, foram identificados cerca de 2.385 casos de câncer entre os participantes analisados.
Essa abordagem faz parte do conceito que os pesquisadores chamam de “espectro de movimento de 24 horas”. A ideia é considerar que as 24 horas do dia precisam ser distribuídas entre diferentes comportamentos, como dormir, ficar sentado, permanecer em pé e realizar atividades físicas. Assim, aumentar o tempo gasto em uma dessas atividades necessariamente reduz o período disponível para outra.
Pequenos movimentos já fazem diferença
Os resultados chamaram atenção especialmente para a atividade física vigorosa — aquela que eleva significativamente a frequência cardíaca e faz a pessoa respirar mais rapidamente e suar. Entre os exemplos estão correr para pegar um ônibus, subir escadas rapidamente ou carregar sacolas pesadas de compras.
Segundo Mitchell, mesmo pequenas reduções nesse tipo de movimento podem estar relacionadas a mudanças no risco observado: “Com base em modelos teóricos, nosso estudo mostrou que a perda de dois a três minutos por dia de atividade vigorosa e a substituição desse tempo por atividades como ficar sentado, dormir ou realizar atividades mais leves, aumentou o risco de câncer”.
A revista Discover destaca que a pesquisa amplia a discussão sobre os efeitos do movimento ao considerar, além do exercício, o tempo gasto dormindo e em atividades sedentárias. Estudos anteriores já haviam encontrado associações entre níveis mais elevados de atividade física e menor risco de diferentes tipos de câncer.
Impacto das atividades físicas na saúde
Os pesquisadores apontam alguns mecanismos que poderiam explicar a associação entre maior atividade física e menor risco de câncer. Entre eles estão a redução da inflamação crônica e da resistência à insulina, condição em que o organismo passa a responder menos adequadamente ao hormônio responsável por ajudar a controlar a quantidade de açúcar no sangue.
A atividade física também contribui para o controle do peso, outro fator relacionado ao risco de câncer. Além disso, movimentar-se ao longo do dia ajuda a interromper períodos prolongados sentado, que podem estar associados a alterações metabólicas prejudiciais à saúde.
Vale lembrar que, ao se referir a “atividades físicas”, a equipe não se limita apenas aos exercícios planejados. Atividades incorporadas à rotina, sem necessariamente exigir uma sessão formal na academia, também podem aumentar o nível de movimento diário.
Tempo recomendado de atividade
Os resultados da pesquisa não alteram as recomendações atuais de atividade física. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), adultos devem realizar entre 150 e 300 minutos de atividade física moderada por semana ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, ou ainda uma combinação equivalente das duas intensidades.
Atividades moderadas incluem caminhada rápida, ciclismo em ritmo leve a moderado e algumas modalidades recreativas, como badminton. Já entre as atividades vigorosas estão corrida, ciclismo em alta intensidade, natação rápida, basquete e tênis. A entidade ainda recomenda a prática de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana, envolvendo os principais grupos musculares.
Fonte: AJN1