No próximo dia 13 de novembro chega às plataformas de streaming e em CD: “Volta Seca – Canções do cangaço” (Jasmin Music), álbum que reúne Danilo Caymmi e Ricardo Bacelar. Trata-se de um resgate musical e histórico das canções de Antônio do Santos, o lendário Volta Seca, mais jovem dos cangaceiros do bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.
O projeto de Danilo Caymmi e Ricardo Bacelar propõe leituras contemporâneas para canções lançadas originalmente no vinil “Cantiga de Lampião”, tesouro musical no qual o próprio Volta Seca gravou oito canções, com orquestração do maestro Guio de Morais. Lançado há quase 70 anos (1957) pela gravadora e editora Todamérica, o registro original serviu de inspiração para “Volta Seca –Canções do cangaço”, gravado em abril deste ano no estúdio Jasmin, em Fortaleza (CE).
A ideia partiu de Danilo Caymmi: “Depois de pesquisas que fiz sobre o tema, me surpreendi ao saber que o Volta Seca, que entrou para o cangaço ainda menino, com 11 anos, havia feito músicas, algumas delas com grande ternura. Fiquei com essa ideia de gravá-las um dia, com novos arranjos”. A ponte entre Danilo e Ricardo se deu através da Editora Todamérica, que administra as obras de Volta Seca. “A nossa aproximação foi imediata: o Ricardo Bacelar gostou muito e decidiu produzir o álbum no estúdio dele, em Fortaleza. O trabalho ficou muito bonito, muito sólido”, complementa Danilo.
Danilo e Ricardo se revezam nos vocais ao longo das nove canções do álbum, incluindo “A Água Que Faltou no Céu”, única que não pertence ao repertório de Volta Seca, composta pela dupla com o letrista Luis Lima Verde, durante o processo de imersão no estúdio Jasmin. “Fizemos uma pesquisa profunda de ritmos nordestinos para criar novas abordagens para as canções, que possuem harmonias muito singelas. Primeiro pensei em trazer algo da estética da música armorial – que é uma vertente da música de concerto brasileira que mistura a erudição europeia com as tradições populares do Nordeste -, mas acabamos chegando numa sonoridade mais orgânica, mais contemporânea para esse repertório”, pontua o multi-instrumentista e produtor, eleito o 7º melhor tecladista e o 9º melhor arranjador na votação de 2026 dos leitores da Revista DownBeat, uma das mais respeitadas publicações de jazz do mundo.
Ricardo Bacelar assina os arranjos das nove músicas do disco, com a colaboração de Márcio Rezende em sete e de Estênio Gonçalves em um dos arranjos. Para o material gráfico foram produzidas pinturas originais encomendadas ao artista plástico Cadeh Juaçaba e uma biografia de Volta Seca, assinada por Luiz Carlos Prestes Filho.
Retratado em inúmeros livros, filmes, documentários e pesquisas acadêmicas, o período do cangaço desperta até hoje enorme curiosidade em torno do contexto histórico, das lendas, simbologia, a cultura do cangaço, a vestimentas, da estética muito particular e das incontáveis histórias contadas de geração a geração. Neste projeto, Danilo Caymmi, carioca filho do baiano Dorival, e Ricardo Bacelar, cearense, quiseram abordar a música de Volta Seca como representante de um período importante da cultura nordestina e brasileira. A proposta do projeto é abordar o tema estritamente sob a vertente musical, deixando a pesquisa histórica para análise de pesquisadores.
“Para mim, que sou nordestino, é uma felicidade mergulhar nesse universo tão presente no ambiente onde eu nasci e cresci. Como além de músico sou advogado, elaborei, durante muitos anos, os contratos do acervo fotográfico da família de Maria Bonita e Lampião. Tenho muito carinho por Expedita e Vera (filha e neta do casal de cangaceiros)”, conta Ricardo, que também obteve autorização das famílias de Lampião, Maria Bonita e Volta Seca para incluir fotos na edição física do projeto, bem como imagens originais do fotógrafo Benjamin Abrahão usadas nos videoclipes de três canções do álbum, dirigidos por Gabriel Lage.
No repertório de “Volta Seca – Canções do cangaço”, que será lançado nas plataformas digitais e no formato de CD, estão temas como “Mulher Rendeira”, “Acorda Maria Bonita”, “Escuta Donzela”, “Sabino e Lampião” e “Eu Não Pensei Tão Criança”. O álbum inicia ainda uma parceria com a Todamérica: “Conversando com Vanisa Santiago, representante da editora, já estamos planejando um novo projeto para o começo de 2027, explorando novas vertentes musicais do arquivo precioso da editora”, adianta Bacelar.
Sobre Volta Seca
Aos 11 anos, Antônio dos Santos, filho de lavrador nascido em Itabaiana Grande, Sergipe, passou a integrar o temido bando de Lampião depois de fugir de casa, no povoado Guloso (atual cidade Novo Triunfo, na Bahia), onde trabalhava na roça. Após dois anos intensos nos quais testemunhou os embates de Lampião, o início do namoro do capitão e Maria Bonita, os inúmeros bailes embalados pela sanfona e confrontos violentos com inimigos do bando, o menino foi preso em 19 de fevereiro de 1932, cumprindo 20 anos de prisão.
Como compositor e letrista, Volta Seca transformou-se no guardião da memória afetiva do cangaço ao gravar o LP “Cantigas de Lampião”, em 1957, que agora ganha nova leitura de Danilo Caymmi e Ricardo Bacelar.
Sobre a Todamérica
Criada como editora musical em 1945, tendo como sócios compositores: Braguinha, Oswaldo Santiago, Antônio Almeida e Alberto Ribeiro, a Todamérica atuou até 1948 apenas como editora musical. A partir de 1950 passou a ser também uma gravadora, lançando discos em 78 rotações de nomes já consagrados na época, como os músicos Radamés Gnatalli e Abel Ferreira, e revelando cantoras estreantes, como Elizeth Cardoso e Doris Monteiro.
Do catálogo fonográfico precioso da Todamérica, que segue em plena atividade há quase 8 décadas, constam gravações de artistas como Cascatinha e Inhana, Lamartine Babo, Nora Nei, Ataúlfo Alves, Virginia Lane, Ciro Monteiro, Ademilde Fonseca, Orquestra Afro-Brasileira e J.B. de Carvalho, entre muitos outros.
Sobre o selo Jasmin Music
À frente do Jasmin Music, Ricardo Bacelar – multi-instrumentista, cantor e arranjador -, vem produzindo um catálogo de singles e álbuns em colaboração com artistas como Flávio Venturini, Leila Pinheiro, Toninho Horta, Roberto Menescal, Fagner, Jaques Morelenbaum, Ednardo, Amelinha, Delia Fischer e Gilberto Gil. Flora Purim e Airto Moreira, dois grandes ícones do jazz internacional, voltaram a gravar produzidos por Ricardo Bacelar, que lançou pelo selo Jasmin Music o single “Aqui, Oh!”, um álbum instrumental com Airto (“Maracanós”) e um projeto ainda inédito como álbum musical, que também será editado como documentário.
Em votação recente dos leitores da revista DownBeat, Ricardo Bacelar figura em sétimo lugar na categoria tecladista e em nono na de arranjador, no DownBeat Readers Poll 2026. A revista elege anualmente os principais músicos em diversas categorias.
Fonte: AJN1