O Brasil tem 15,8 milhões de empreendedores negros, que representam 52,3% dos donos de negócios do país. Apesar de serem maioria, ainda enfrentam desigualdades expressivas: o rendimento médio de pretos e pardos corresponde a apenas 56% do recebido pelos empreendedores brancos.
Os dados são de levantamento do Sebrae, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do IBGE, e evidenciam a necessidade de ampliar oportunidades e reduzir as desigualdades no empreendedorismo. Ao longo de novembro, o Sebrae estará presente em uma série de ações em diferentes regiões do país para marcar o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado no dia 20.
A programação apoiada pelo Sebrae contempla eventos em Salvador (BA), Brasília (DF) e Vitória (ES), com feiras de empreendedorismo, exposições, palestras, painéis e rodadas de negócios. Além de celebrar a cultura e a identidade afro-brasileiras, as atividades buscam dar visibilidade aos empreendedores negros, estimular conexões comerciais e abrir caminhos para novas oportunidades de negócios.
Para a gestora de Afroempreendedorismo do Sebrae, Fau Ferreira, fortalecer negócios liderados por pessoas negras é também uma estratégia de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva.
O afroempreendedorismo é uma expressão de potência econômica, criatividade e transformação social. Quando ampliamos o acesso de empreendedores negros à qualificação, às redes de relacionamento e aos mercados, estamos contribuindo para que talentos e negócios tenham condições reais de crescer. A Consciência Negra também nos convida a refletir sobre a importância de transformar representatividade em oportunidades concretas.
Fau Ferreira, gestora de Afroempreendedorismo do Sebrae
Novembro de conexões, cultura e oportunidades
A agenda apoiada pelo Sebrae começa nos dias 7 e 8 de novembro, durante o Afropunk Brasil 2026, no Parque de Exposições de Salvador, na Bahia. Reconhecido por reunir música, moda, beleza e expressões da cultura negra, o festival também será espaço para geração de negócios. Com o apoio do Sebrae, 15 empreendedoras terão a oportunidade de expor produtos em uma feira, ampliando a visibilidade de suas marcas e o contato com novos públicos.
Na capital federal, nos dias 16 e 17 de novembro, o Sebrae participará do Seminário Cooperação Internacional para a Justiça Racial, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. A iniciativa será voltada aos participantes do programa Caminhos Amefricanos, que promove intercâmbios internacionais e a circulação de conhecimentos e experiências relacionados ao enfrentamento do racismo e à valorização das histórias e culturas africanas e afro-diaspóricas (termo que remete à diáspora africana, o processo histórico de dispersão de populações de origem africana para fora da África).
Salvador volta a receber uma das principais iniciativas da programação com o Festival Afrofuturismo, realizado de 19 a 21 de novembro, no Centro Histórico da cidade. A participação do Sebrae está prevista para os dias 20 e 21, com painéis, palestras, rodadas de negócios e exposição de startups. Promovido pela organização Vale do Dendê, o evento conecta cultura, tecnologia, criatividade e inovação, com destaque para o protagonismo negro na construção de soluções e oportunidades para o futuro.
Também nos dias 20 e 21 de novembro, o Sebrae apoiará o Encontro das Pretas, em Vitória, no Espírito Santo. A programação contará com uma feira de empreendedoras negras, palestras e painéis, criando espaços para troca de experiências, fortalecimento de redes e divulgação de produtos e serviços.
Da produção artesanal ao sonho de conquistar novos mercados
O levantamento do Sebrae também aponta avanços na escolaridade e nos rendimentos dos empreendedores negros, embora persistam desafios, especialmente para as mulheres. Elas representam cerca de um terço desse universo e registram os menores rendimentos entre os grupos analisados, com média mensal pouco acima de R$ 2 mil. O cenário reforça a importância de iniciativas que promovam qualificação, acesso a mercados e fortalecimento de redes de apoio, criando condições para que a representatividade também se traduza em crescimento econômico.
Aos 12 anos, Valéria Maria Teixeira dos Santos pediu dinheiro à mãe para comprar calcinhas e sutiãs e revendê-los. Sem saber, dava os primeiros passos em uma trajetória empreendedora que, décadas depois, a levaria à criação de sua própria marca de cosméticos.

Criada por uma mãe solo, empregada doméstica e responsável por três filhos, a carioca conheceu cedo as dificuldades financeiras e precisou superar experiências dolorosas ao longo da vida. Hoje, à frente da Ative Life Cosméticos, transforma sua história em inspiração para outras mulheres que desejam conquistar autonomia por meio do empreendedorismo.
A ideia de criar um negócio próprio ganhou força em 2021, depois de anos trabalhando com carteira assinada e revendendo produtos de diferentes marcas. Em dezembro de 2022, Valéria começou a produzir artesanalmente, em casa, o SPA Hidratante, primeiro produto da empresa.
Após enfrentar dificuldades para profissionalizar a produção e receber negativas de fabricantes, conseguiu uma parceria em São Paulo. Em agosto de 2023, nasceu oficialmente a Ative Life Cosméticos, que hoje conta com uma linha de produtos voltados ao autocuidado. A marca conquistou espaço em feiras e eventos no Rio de Janeiro.
O Sebrae também faz parte dessa caminhada. Valéria participou de iniciativas como o Sebrae Delas, programa de valorização e aceleração do empreendedorismo feminina, e do Sebrae Afro, do Sebrae/RJ, além de capacitações, consultorias e eventos de acesso a mercados, incluindo uma viagem a Salvador para apresentar seus produtos e estabelecer conexões comerciais.
“Essa conexão me ajudou a compreender que empreender não significa caminhar sozinha. Buscar conhecimento, aceitar orientação e construir uma rede de apoio também são atitudes de força”, conta a empreendedora, que tem planos de ampliar as vendas digitais em 2027.

Quando o medo dá lugar à coragem de empreender
Durante anos, a contadora Soeslan Santana dedicou sua experiência profissional ao crescimento de empresas de outras pessoas. Apesar das responsabilidades cada vez maiores, não encontrava oportunidades de ascensão na carreira. Mãe e mulher negra, decidiu, após o nascimento da filha, transformar o conhecimento acumulado na contabilidade em um negócio próprio.
A decisão veio acompanhada de inseguranças, mas os primeiros cinco clientes, conquistados por indicação, deram o impulso necessário para deixar o emprego formal e iniciar sua trajetória como empresária. Para se preparar, buscou capacitações em gestão, finanças, mentalidade empreendedora e posicionamento profissional.
Como mulher negra, Soeslan também precisou enfrentar preconceitos relacionados à aparência e à credibilidade em um mercado no qual a confiança é fundamental. Nesse processo, encontrou no Sebrae apoio por meio de treinamentos, workshops e iniciativas como o Sebrae Delas e o Sebrae Plural. Com o amadurecimento do negócio, passou também a compartilhar sua experiência como palestrante e mentora voluntária em eventos da instituição.
O escritório cresceu, especializou-se no atendimento contábil a organizações do terceiro setor e, segundo a empreendedora, registrou aumento de cerca de 900% no faturamento no primeiro ano. Em 2026, passou por um reposicionamento de marca e adotou o nome Conosco Contabilidade, refletindo a transformação de uma atuação individual em uma empresa estruturada, com colaboradores e perspectivas de expansão.
No mesmo ano, Soeslan conquistou a prata na etapa baiana do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. Para ela, empreender também significa abrir caminhos para outras mulheres negras. “Tente, vá com medo, faça terapia, se prepare, se capacite, porque quando a oportunidade acontecer, você tem que estar minimamente pronta para aproveitá-la”, aconselha.
Fonte: Agencia Sebrae