Por Valter Albano
Sergipe ostenta com orgulho o título de “País do Forró”. É uma identidade forjada no fole da sanfona, no compasso do triângulo e na batida do zabumba. No entanto, ao observarmos o cenário cultural de 2026, uma contradição latente emerge nos corredores da principal emissora do estado, colocando em xeque o que realmente estamos preservando para as futuras gerações.
De um lado, a TV Sergipe dedica espaço e cobertura ao Fórum do Forró, uma iniciativa fundamental que se propõe a ser a trincheira de resistência do autêntico “pé de serra”. Em 2026, o evento ganha um peso simbólico ainda maior ao homenagear Flávio José, uma das vozes mais resilientes contra a “plastificação” do nosso ritmo nordestino. O Fórum discute a salvaguarda do patrimônio, a poética de Luiz Gonzaga e a urgência de manter viva a essência de uma festa que é, acima de tudo, um rito de identidade.
Contudo, a mesma mão que aplaude a resistência no Fórum parece alimentar o motor da descaracterização no “Forrozão da Sergipe”. O evento, capitaneado pela emissora, tem se tornado, ano após ano, o principal vetor de uma estética musical que pouco ou nada dialoga com a raiz sergipana. Ao abrir palcos para o que muitos críticos chamam de “pseudo-atrações juninas” — misturas genéricas que priorizam o algoritmo em detrimento do lirismo —, a emissora atua como um agente de erosão cultural.
A contradição é flagrante. Como pode o “País do Forró” permitir que sua maior vitrine midiática seja o palco de ritmos que diluem a nossa tradição? Enquanto o Fórum do Forró tenta educar e proteger, o entretenimento de massa da mesma rede de comunicação parece empenhado em transformar o São João em um festival genérico de música pop, onde a sanfona é mero acessório visual e o forró de essência é empurrado para as margens da programação.
Honrar Flávio José em um fórum acadêmico ou cultural é um gesto nobre, mas soa vazio se, na hora de montar a grade do “grande show”, o critério é o número de seguidores e não a relevância para o patrimônio imaterial. Flávio José é conhecido por sua frase icônica: “Eu não canto para os pés, eu canto para o coração”. O que vemos na vertente comercial da TV Sergipe, infelizmente, é uma música que não fala ao coração e nem sequer respeita os pés de quem sabe dançar o verdadeiro xote, o baião e o arrasta-pé.
Se Sergipe é, de fato, o País do Forró, essa soberania precisa ser exercida com coerência. A preservação da cultura não pode ser um discurso de “façanha” para os livros de história enquanto o presente é entregue à conveniência do mercado. É necessário que a curadoria dos grandes eventos midiáticos reflita a responsabilidade de quem detém o título de guardião da tradição. Do contrário, o Fórum do Forró corre o risco de se tornar apenas um museu de ideias, enquanto o povo é alimentado com uma cultura de plástico que apaga o nosso passado em nome de um lucro efêmero.
Defender o autêntico forró não é uma questão de saudosismo, é uma questão de sobrevivência identitária. Que o exemplo de Flávio José em 2026 sirva não apenas para fotos e homenagens protocolares, mas como um chamado à coerência para aqueles que têm o poder de decidir o que ecoa nos lares sergipanos.
Historiador, desenvolve pesquisas sobre Música, Cultura, Mitos, Lendas, Imaginário Coletivo e Conflitos Sociais Rurais com tônica para o Cangaço, onde dedica especial interesse e domínio.