Entre o som contagiante do candombe, a delicadeza do artesanato e as vozes dos corais, o lugar que surpreende os visitantes com histórias fascinantes, tradições centenárias e um patrimônio cultural que mantém viva a alma de seu povo. Foto: Paulo Atzingen/Diário do Turismo
Por Eliade Pimentel | Texto reeditado por Cassandra Teodoro
Era fim de tarde de 18 de setembro quando o grupo de jornalistas e comunicadores de turismo chegou a Los Cerrillos, durante o famtour do I Encontro Internacional FEBTUR. Apesar do vento frio, a recepção na Praça José Batlle y Ordóñez foi calorosa, embalada pelos tambores do candombe e pelos sorrisos dos moradores. A experiência foi muito além do esperado: por trás da aparente tranquilidade da cidade, havia histórias surpreendentes.
Duas bandeiras uruguaias, semelhantes, mas não idênticas, despertaram a curiosidade dos visitantes. Marcela Acosta, atriz, professora e diretora da Casa de Cultura local, revelou o motivo: Los Cerrillos é berço de María Josefa Álamo, artesã que bordou com fios de ouro o Sol de Maio da primeira bandeira nacional do Uruguai. Casada com Joaquín Suárez, figura importante no processo de independência, ela deixou seu nome na história do país. A bandeira foi hasteada oficialmente pela primeira vez em 1º de janeiro de 1829.
Antes de compartilhar essa história, Marcela presenteou os visitantes com um livro do poeta Gerardo Molina, também nascido na cidade. Um gesto delicado que antecipou a essência de Los Cerrillos: um lugar onde cultura, memória e identidade se entrelaçam e permanecem vivas por meio de sua gente.
Cultura que faz parte do cotidiano
Em Los Cerrillos, a cultura é uma política pública que fortalece a identidade local e aproxima gerações. A Casa de Cultura, vinculada à Direção-Geral de Cultura de Canelones, oferece cursos gratuitos e reúne grupos de artesanato, teatro, coro e candombe, que ensaiam semanalmente e se apresentam em diferentes espaços, inclusive na praça aos domingos.
“É o lugar de referência da cidade, onde se encontram todas as manifestações culturais, do artesanato à música”, explicou Marcela Acosta, diretora do espaço. Essa participação comunitária permite ao visitante conhecer de perto as tradições que permanecem vivas no cotidiano dos moradores.
Foto da a gestora da cultura, a entrevistada Marcela Acosta com Eliade Pimentel que explicou a história por trás das enormes bandeiras flamulando ao vento.. Foto: Paulo Atzingen/Diário do Turismo
Los Cerrillos: tradições que encantam os sentidos
Em Los Cerrillos, a cultura se revela nos sons, nas cores, nos sabores e nos encontros que dão vida à cidade. O calendário local celebra essa identidade com eventos que aproximam moradores e visitantes. Em outubro, o Festival da Música do Liceu enche o ambiente de vozes, dramatizações, cânticos e danças. Já o Festival do 3 de Agosto, que completou 130 anos naquela edição, comemora o aniversário da cidade com atividades na Sociedad Criolla Manuel Antonio Ledesma e na Criolla Los Cerrillos, espaços onde as tradições seguem presentes.
A bandeira histórica, confeccionada e bordada por María Josefa. O trabalho dessa mulher, cuja habilidade artesanal atravessou o tempo, faz parte de uma história que confere à cidade um lugar especial na memória nacional uruguaia. Foto: Paulo Atzingen/Diário do Turismo
Com a chegada de dezembro, a praça principal ganha novos contornos. A partir do dia 8, data dedicada a Nossa Senhora da Conceição, a árvore e os enfeites natalinos anunciam o período festivo. Uma semana antes do dia 25, a Feria Navideña transforma o espaço em ponto de encontro, com aromas da gastronomia local, música e apresentações artísticas e culturais. É tempo de passear sem pressa, conversar, provar sabores e sentir a hospitalidade uruguaia. No país, o dia 25 é conhecido como Dia da Família, uma ocasião marcada pelo convívio e pela reunião dos entes queridos.

Los Cerrillos é aquele lugar que conquista pelo ambiente, pela boa gastronomia e pela experiência de viver momentos especiais. Foto: Paulo Atzingen/Diário do Turismo
Nos arredores, as estâncias completam a experiência com pratos caseiros da tradição uruguaia e vinhos nacionais, servidos em cenários que preservam o sossego e o acolhimento do interior de Canelones. Entre uma refeição e outra, a paisagem convida a desacelerar e a perceber os detalhes que também contam a história da região.
Los Cerrillos mostra que uma viagem marcante nem sempre depende de grandes monumentos. Às vezes, ela começa com o som dos tambores que reverbera pela praça, ganha vida no brilho dourado do Sol de Maio e permanece na lembrança por causa de um gesto de acolhida ou de uma história inesperada. Naquela tarde fria, entre o ritmo contagiante do candombe e as conversas com quem guarda com orgulho a memória da cidade, compreendi que ali a cultura não é apenas lembrança do passado: é presença, emoção e pertencimento. E é justamente essa essência, viva nos sons, nos sabores e nas pessoas, que faz de Los Cerrillos um lugar que se conhece com os olhos, mas se leva na memória e no coração.
