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Debates televisivos e democracia: uma falsa correlação

Por Adelmo Pelágio

No ano de 1989 deu-se a revivescência das eleições diretas para a Presidência da República no Brasil, as quais tiveram seu período de campanha marcado por uma inovação midiática inspirada na experiência da televisão norte-americana: os debates televisivos entre os presidenciáveis.

Os debates contaram com a expressiva audiência de telespectadores seduzidos pelos confrontos retóricos entre os debatedores (algumas dessas contendas vindas à tona, na atualidade cibernética, em cortes postados em redes sociais).

E foi justamente uma coleção organificada de cortes, ou seja, uma edição, o ponto mais polêmico de toda a campanha. No segundo turno da campanha de 1989, o último debate, protagonizado pelos candidatos Fernando Collor e Lula, deu origem a um resumo editado e transmitido pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, o qual passou para a história como um produto parcial, enviesado e tendencioso, com repercussão possivelmente determinante para o resultado da eleição, considerando-se a supremacia da comunicação televisiva (e, nesse universo, da Rede Globo) no processo de formação da opinião pública do povo brasileiro.

Foi uma experiência pedagógica para o cidadão brasileiro, que pôde, com o tempo, entender, por uma experiência coletiva concreta, que, por meio de edições, seria possível manipular a consciência de um povo.

Mas os debates prosseguiram nas sucessivas eleições, firmando-se, na consciência coletiva, como formato comunicacional congênito à própria democracia.

Não é verdade.

Mesmo antes da invenção e da popularização da televisão no Brasil, não havia a cultura de debates entre candidatos a cargos eletivos. Cada um planejava e executava a sua campanha buscando comunicar suas ideias ao eleitor através da imprensa escrita, do rádio e, sobretudo, da interação presencial com o eleitor, por meio de comícios, passeatas, reuniões e tudo mais que possibilitasse o convencimento do eleitor a um engajamento em um projeto político.

Com o advento da internet e, sobretudo, das redes sociais, a televisão perdeu o seu quase monopólio informativo. A comunicação social se fragmentou em unidades aparentemente caóticas, mas, em verdade, ordenadas pelos algoritmos estruturadores do processo de distribuição individualizada das informações (postagens) nas plataformas virtuais.

O próprio formato das redes sociais, estabelecido com base em informação concisa e sequenciada, em termos práticos, ao infinito, passou a fomentar táticas de sequestro da atenção do usuário das redes, que passaram a consumir seu tempo e energia intelectual debruçados sobre cortes e mais cortes descontextualizados de suas matrizes, quase nunca consultadas quanto mais conferidas em sua integralidade.

Se a edição televisiva dos debates gerava o grave problema de edições distorcidas e manipuladoras, emitidas por centros concentrados de poder, a atualidade revela o não menos grave problema das edições atomizadas e distribuídas algoritmicamente de acordo com as preferências ideológicas do usuário, fazendo com que cada eleitor viva numa bolha virtual, confundindo o mundo com o seu pensamento desejante.

O fato é que os debates sempre foram um circo midiático; mero e perigoso entretenimento eleitoral, em que as sensações nublam a racionalidade, fazendo com que a capacidade de confrontar o outro performaticamente se confunda com valor político. (Vide a última eleição para a Prefeitura de São Paulo e o fenômeno Pablo Marçal.)

Em verdade, os debates televisivos têm muito mais perturbado do que enriquecido o processo eleitoral.

Além dos efeitos negativos da primazia da performance sobre o conteúdo, da potência semântica maior da edição que da transmissão, o debate desloca o centro de gravidade da campanha da relação candidato-eleitor para a relação candidato-candidato.

O desempenho orientado à afirmação da supremacia da personalidade de um candidato sobre a do outro torna-se o eixo central da campanha, em detrimento da interlocução do candidato com o eleitor, desde a participação coletiva na construção do programa de governo até a interação presencial discursiva sobre o seu conteúdo.

Num mundo cada vez mais virtualizado, em que os seres humanos são aglutinados ciberneticamente de acordo com preferências rasas e irrefletidas, faz-se necessário evitar, ao máximo, expedientes que alimentem esse mecanismo de alienação política cujos efeitos são cada vez mais potentes e deletérios para a democracia.

É preciso revivescer a interação presencial com o povo, os comícios, as passeatas, a conversas nas ruas, envolvendo as pessoas em projetos políticos de transformação coletiva, sem prejuízo da atuação pelos meios de comunicação de massa, em que as entrevistas podem ser formatos produtivos de exposição do pensamento.

Debates televisivos não contribuem para a democracia.

Acertam os políticos que deles se ausentam.

*Adelmo Pelágio de Andrade Filho é delegado de polícia e radialista

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